29 de dezembro de 2008

Desejar quando chega no fim
e no início é fácil.
Queremos carros, casas,
um cabelo de outra cor.
Cremes,
e roupas lindas.
Precisamos urgentemente ser amados,
fazer regime.
- Novos amigos, novo emprego, nova família.

Os desejos vão crescendo mais que nós mesmos:
monstros familiares...
Esperam de manhã nos armários,
dentro das caixas,
espalhados pela rua.
Estão por perto, tomam tempo e cuidado.
Enquanto desejamos desenfreadamente, nossos filhos crescem.
Nossos pais envelhecem,
tão perto...
- Tão perto.
O mundo escapa das nossas mãos
e estava tão perto...


Eu não quero nada hoje.
Não quero nada fora de mim:
desejo pra dentro.
Ser mais bonita, por dentro.
Curar minhas dores,
meus medos, aqui dentro de mim.
E depois, quando querer pra fora,
quero para os outros.
O bem.
A paz.
O amor.
Só isso.
É uma questão de direcionar os desejos
para caminhos mais verdes.
E bonitos.

25 de dezembro de 2008

Oração II

À mãe, por curar dores sentimentais.
Ao pai, por construir um lar e me incluir nele
todos os dias do ano.
Ao irmão, por dividir, amando nas entrelinhas.


- Deus, abrace meu coração:
ele dorme do lado de fora.

14 de dezembro de 2008

Oração.

Essa noite vou desenhar
um círculo de giz
no chão do meu quarto
e dormir do lado de dentro.
É só a maneira tímida
que encontrei de rezar.

10 de dezembro de 2008

Como dizia minha vó:

" O TEMPO passa que a gente
nem se apercebe..."

3 de dezembro de 2008

pra variar, CHOVEU.


e meus 'pequeninos' do maternal
acreditam que meu guarda-chuva
me dá o poder de voar.

30 de novembro de 2008

- Godofredo?
- Sim...
- Blogs também servem para dizer que queremos um namorado?
- Não.
- Por quê?
- Ahm, porque soa desesperado. Coisa de menina carente e talz.
- Ah... Godofredo?
- Sim.
-(...) Ele vai vir?


Ele cerrou a sobracelha e não respondeu.
Encontrei um bilhete na cama, no outro dia:

"- Ele vem."

Contando planetas

Meu muro quase tampa todo o céu
Mas tem uma fresta
que fica no eixo exato da janela
quando aberta.
E que fica também
no rumo exato
daquela estrela
que me disseram que é planeta.
- Eu acho que é estrela.
Essa noite fiz três pedidos pra ela.
Então, na fresta do muro,
no rumo da janela,
naquele curto espaço de quarto
e infinito espaço de céu,
vão acontecer meus pequenos milagres:

que a fresta não desapareça;
o rumo não desvie;
e a estrela/planeta me inspire aonde eu for.

29 de novembro de 2008

Da necessidade de escrever

Faz versos, pequena!
Fala dos sentimentos etéreos
Que esperam do outro lado da janela
Para serem uma única vez.

Tira delicadamente as palavras dos cabelos.
Essas coisas que querem dizer
E não dizem.

Os portais do tempo são seus.

Conhece tão bem
A tragédia e o milagre
De possuir a tradução dos sentimentos humanos.
Isso despertará pena
E ciúmes.

Sua missão lhe empurrará de precipícios
Para ensinar a pairar debaixo do céu
E em cima do fim.

28 de novembro de 2008

Eu vou estar.

Você vai passar.
Eu sei.
Outros planos,
uma vida diferente.
Sei que vai querer seu espaço.
Formar família,
criar filhos.
Recitais
e formaturas.
Sei que vou estar numa lembrança.

Pensamento distante em dia de chuva.

Vou caber no segundo
em que abrir aquele caderno.
Encontrar aquele bilhete.
Vou ficar ali, num compartimento distraído da gaveta
até você achar.

Vou deitar meus braços na foto antiga
que ficou dentro da décima primeira página
do livro que você mais gosta; mas não leu.

Vou adormecer lá.

Naquele versinho de letra difícil
Na música de letra fácil.
Pátio da escola.
Árvore velha.
Casa 13, rua Perdida
do mapa que não existe mais.

22 de novembro de 2008

I miss you love.

Nessa época a solidão se emancipa,
desfigura e segue identidade própria
puxando a seqüência dos meus passos.
As luzes das lojas
das vitrines, viadutos
não iluminam nada.
Confundem o caminho
com sombras que não são seus olhos.
Tem meu amor.
Tem seus olhos.
Permaneço aquecida enquanto a lembrança está comigo.

Nessa época fica mais difícil sair do quarto.
Fica perigoso as multidões misturadas com as luzes todas.
Não consigo ver.
Do outro lado está nosso quintal
Vazio.
Está nosso jardim
E as pragas do jardim
E os monstros do jardim
Do outro lado...
eu sinto falta de você.
Sinto muita falta de você.
Sei que tenho que fingir
que o poema não é sobre isso,
mas sinto muita falta
dentro de mim.

E nessa época,
principalmente nessa época, me lembro.

19 de novembro de 2008

Acho que perdi a mão.
Igual quando a receita queima,
ou fica salgada.

Estou numa fase: ‘não escrever a qualquer custo
para não perceber o que estou sentindo.’




Perdeu-se.

18 de outubro de 2008

Têm estranhos que trago comigo.
Não deixo que me escolham...
Sei bem quem eu quero.
Construo fortes
E castelos
Traço enigmas em papéis invisíveis
que não sei responder.
Meu ciúme só não é maior que meu amor.
Tenho atos de devoção
com indiferenças profundas.
Tenho distâncias insuperáveis
com uma proximidade amorosa.


E estou sempre só.
Antes que me esqueça desse detalhe importante.

20 de setembro de 2008

Marcelo Camelo é fim de tarde olhando pro mar.
É visitar Rio de Janeiro sem ir.
É língua Portuguesa sem gramática,
mas também lição de casa.
Tímido passarinho que senta na mão da gente.
E a gente fecha o olho pra guardar na memória
de tanto que o coração dispara.
E a gente pensa, quando ouve ele, que não vai sarar.
Mas ele canta assim bem azul,
com mãos estendidas na canção.
Aí dói menos,
até sarar.

30 de agosto de 2008

Quantas teclas caberão nesse sentimento meu
de solidão?
Se eu digitar s-o-l-i-d-~-a-o
em folhas e folhas
ela diminui ou aumenta?
Se rabiscar seu olhos
no teto
acordarei mais feliz?
Já não bastam fotografias
Nem cartas
Nem mesmo e-mails
Ou o dia inteiro juntos
Minha solidão tem fome
maior que o próprio sol.
Seu amor é maior que o próprio sol.
O problema são as nuvens que,
vez em quando,
cobrem esses castelos de areia
e atrasam meus navios.



- Queria (muito) que você estivesse aqui
.
A chuva caia do céu cinza. Inevitável não querer falar da chuva com ele, mesmo que isso fosse uma desculpa para ficar perto.




E era.

19 de agosto de 2008

Tem dias tristes, bem vagarosos de levantar, quando as vezes acordo faltando 5 minutos para o outro dia. Sempre atrasada.

Tem dias bons. Dançar na rua não parece tão avesso do avesso. Mp3 não tem a magia do vinil, mas é portátil.

Tem dias amorosos de doer! Pombos e cachorros dançam sincronizado num musical hollywoodiano.

Tem dias sozinhos. Telefones são muito modernos, bases alienígenas! Deitada, vegetando(ando), enquanto a vida vai dar uma volta.

Tem, no meio, tanta criança que parece orfanato, mas também parece céu. Tem piolhos e cócegas insuportáveis.

Porque o mundo é feio e bonito.

E sou alguma coisa assim: entre Deusa e pó.


É difícil para alguém de cinco anos entender como um bicho pode ser dois. Cavalos são associados à terra, associados à branco e estão presentes em todos os contos-de-fada implicitamente. Acho que meu cavalo branco é igual a esse: laranja e vive na água. Por isso meu príncipe deve ter se afogado. - Tadinho.


As crianças da escola acreditam em sereias. Eu não acreditava mais, mas elas falam com uma convicção nos olhos e firmeza na voz que fica praticamente impossível discordar. Quem ousaria?

13 de julho de 2008

Quebrar ciclos
É como pisar em nuvens.
Posso cair a qualquer momento.

Preciso tentar.

Quebrar ciclos não parece bom.
Mas deve ser bom, mesmo que doa tanto.

Essas pequenas mudanças
Essas antigas manias
Essas amizades não tão necessárias assim
Sapatos apertados demais.

Esses objetos repetidos.
O caco do vaso cortando minhas mãos.

Eu vejo a lua lá fora
quebrando ciclos de tempos em tempos.
Se fecha no quarto
- Eclipse.
A lua deve ter muitas dúvidas antes de despertar.
Deve continuar com elas antes de dormir.

Viver é mesmo muito delicado.

(até mesmo para satélites)

8 de julho de 2008

Vidros novos para janela azul.

O papel me olha.
Vou abrindo caminhos
Por entre nuvens
Das brancas linhas invisíveis...
Rabisco aqui
Nesses espaços vazios
Essa necessidade de estar completa
Essa viagem por submundos escuros
Que me trincaram os vidros da janela.
Registro meu retorno à luz.
Caverna e céu brigaram por espaço:
- Enfim sol.
Registro essa manhã de sol.
Esse meu excesso de novidades
Percorrendo exatamente os mesmos passos.
Ontem vi um pássaro na árvore.
Mãe adormecida no sofá.
Uma criança com nome de flor.

Eles estavam me esperando.
As crianças à minha volta me pedem poemas.
Elas mal sabem que são poemas por si só.

18 de junho de 2008

Não se esqueçam de mim.
Eu vou voltar.
Estou distante, mas vou voltar.
Avisem seus corações
que estarei por perto
mesmo brincando de não estar...
Avisem seus abraços dos meus braços
Suas pegadas dos meus pés
Avisem seus cabelos dos meus dedos.
Os cabelos precisam saber do meu retorno!
Sem festa
Ou passeatas
Vou voltar.
Sem grandes arrombos na porta
Ou muito melhor do que era
Simplesmente vou estar
Onde deveria estar.

25 de abril de 2008

Saindo para poder voltar...

Estou deixando o blog para as moscas e as aranhas. Para os leitores e para o Godofredo.
Por favor, olhem esse cantinho para mim por um tempo. Como no título já disse, estou saindo para poder voltar. Compromissos da faculdade. Burocracia nada poética, mas necessária.
Abraços a todos.
Os recados respondei assim que retornar.


Abraços da menina, da mulher...
Da garotinha frágil dentro das minhas mãos.



Priscila Machado

23 de abril de 2008

As gotas de sangue pintaram a água quente.
Pela primeira vez (desafiando as feministas de plantão),
pela primeira vez olhei o sangue vermelho, agressivo,
como um filho que não volta mais.

Raízes estranhas
perfuram a estrutura dos meus vinte e dois anos.

22 de abril de 2008





(clique na tirinha para aumentar!)

11 de abril de 2008


- aos Pequeninos.

Eles me olham nos olhos
todo dia.
Todo dia eu olho
nos olhos deles.
Data, oração, apostila.
Recreio.
Mais apostila...
E no meio todos os sonhos que puder encaixar.

Flores nas pontas dos dedos.
Guache, pincel.
Margem.
Sulfite explodindo chuva branca
pelas frestas dos armários.
Pó de giz nevando
faz-de-conta no verão.
Todos os compassos do mundo
arredondando (ainda mais) os planetas.
Letras escorrem
 oceanos inteiros:
   “onde moram as sereias?”
- Sim! E as estrelas-do-mar!
Leitura em voz alta
"Para a velhinha da última cadeira imaginária escutar”
- Pode me ouviiiir?
Ela sempre sorri e nós sorrimos com ela...

Gelatina sexta-feira depois da lição.
Amarela. Rosa. Verde.
Verde. Rosa. Amarela.
"Arco-íris de pintar estômago!"
(...)
Final de semana;
E eu aqui, doída de saudade.


     Ser professora é quando seu amor foge do peito
para dentro dos cadernos.

6 de abril de 2008

- Sabe Pri, seu blog não tem ninguém. É sempre um festival de poeira e teias, gatos preguiçosos dormindo debaixo da cama.
- Prevejo uma crítica construtiva.
- É, pois então... Quem sabe se você parecesse assim mais sorridente, sabe? Escrevesse alguns versos com sorrisos e florzinhas; mudasse a cor de fundo: muito escuro. A prova são os livros de auto-ajuda que vendem as pencas.
- Godofredo, no próximo post leilôo você.
- Ninguém vai comprar.
- Eu sei.
- Hunf...Você sabe deprimir as pessoas.
Finais de semana são produtivos para um projeto de escritora mal sucedido.
As idéias surgem como as graminhas no canto da parede cimentada.
Crescem no seco.
Tudo que ando plantando nesses dias todos
Estão, incrivelmente, sobrevivendo no seco.
Sinto falta da paixão adolescente pela qual morreria.
Mesmo que fosse mentirinha.
Sinto falta da escola
Como podem rostos vazios deixarem tantas sombras?
Tempos áureos:
- na época mais social das minhas pernas.

30 de março de 2008

Jogos para montar depois da meia-noite.

A manhã que nasce hoje
Tenta me enganar
Vestida como a manhã de ontem.
Essa tarde que virá
(Eu sei)
Virá como aquela de ontem.
Mas não é.
Toda noite que escurece todo dia
Nunca foi 'mesma noite que escurece todo dia'.
Apesar da recorrente Lua

e da invariável solidão...
A Cinzenta cada vez mais está em mim
Desmanchando
Refazendo
Ela vai ser o quintal dos meus filhotes.

26 de março de 2008







(clique na tirinha para aumentar!)
- Godofredo... Sinto, novamente, o gostinho de solidão na boca.
- Espera, minha pequena. Preenche cada espaço com algo que valha.
- E se não existir ninguém?
- Ninguém?
- É. Ninguém bom o suficiente para preencher esse vazio sem fim?
- Você inventa outro amigo imaginário, também ando me sentindo um tanto só...

16 de março de 2008

Silêncio.

8 de março de 2008


Compra-se cheiro de chuva
Pedacinhos do fim de semana
Sua cara zangada
(Ou de quem não está entendendo)
Compra-se tudo aquilo que não está à venda
Música sussurrada
Cheiro de feijão novo
Suas mãos enroladas na minha cintura
Declarações amorosas sem ser
no terrível engarrafamento da cidade cinza
Compra-se criança barulhenta
Um dia inteiro só pra fazer arte
Você naquela camisa verde
(Amassada nos lugares certos)
Sorriso de pai
Perfume de mãe
Dias raros com família junta
Sua apresentação no final de ano
Da escola
Você esquecendo a fala e olhando pra mim...

Compra-se tudo que essa merda de dinheiro nunca vai comprar.
E o mundo só é bom porque elas não estão à venda.



4 de março de 2008



Ninar crianças...

nenhuma faculdade ensina.
Ela esconde entre os dedos um pedaço do céu.
Então
É assim
Corre, pequena garotinha
Guarda todas as estrelas e nuvens
Tempestades e dias de sol
Debaixo das unhas
Cravadas nas próprias mãos
- Ela enfia as unhas nas mãos.
Sangra pequena garotinha
Porque ninguém espera
O tempo não espera
As vozes
Toda a cobrança
Cairá sobre você
Pesada feito todas suas bonecas juntas.
Pisoteando seus caminhos
Apagando seus códigos secretos
nas paredes.
A cobrança virá
E o tempo de espera
Acabou quando você nasceu.

20 de fevereiro de 2008

Nos olhos dos pequenos vejo espaço.
Sinto em cada sorriso ou lágrima
meus gestos refletidos
Cada palma sou eu vibrando neles
- Novas descobertas para reencontrar a vida.
Os erros ficam grandes
O peso da palavra estremece.
Mas eles vão entender
um dia vão
que erro demais tentando acertar.
Ser professora mudou meu caráter
abriu meus braços.

Esperança foi meu primeiro salário.

17 de fevereiro de 2008

O moço, a moça e o bebê.

Sentamos em um restaurante para conversar numa sexta-feira. Um moço, uma moça e um bebê passavam por entres as mesas. O pequenino estava meio sonolento ainda, parecia ter acabado de despertar. Seus pais tinham o rosto tristonho, poderia até arriscar infeliz. Infeliz é uma palavra pesada, mas não encontro outra.
Eles chegaram até nossa mesa. O desconforto dos presentes foi visível. Eu sabia que iam pedir dinheiro, ajuda, alguma moeda, algo assim, porque já havia visto essa cena repetidas vezes, ora com meninos vendendo balas, ora com pedidos de socorro nas campainhas. Eu sabia; porém desejei não saber.
Desejei que a minha casca protetora e antecipada das coisas não existisse naquele momento. Quis me assustar com o pedido do moço, pegar o neném nos braços, perguntar seu nome. Abraçar aquela mãe, que é tão mãe quanto a minha, e perguntar por quais estradas caminharam até ali. Chamar a atenção das outras mesas, assustá-las para o que estava acontecendo, afinal, um pai de família pedir esmolas não é comum. Não pode ser. É estranhíssimo, é completamente absurdo! Aquele brasileirinho deveria estar em seu berço como eu estive quando criança; mas ele não estava.
Fechei os olhos por um segundo imenso. Uma náusea. Quando abri já estavam distantes: a mulher, o moço e o bebê.
Tive impressão que naquele dia a criança envelheceu dez anos, porque, misteriosamente, o choro não era mais infantil, era um choro do avesso.

10 de fevereiro de 2008

Existe um poema do Drummond assim:
“(...)Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave? (...)”

Troque ‘palavras’, por ‘pessoas’...
E então pergunte a alguém realmente importante: trouxeste a chave?
Se a resposta for – não!
Ofereça atalhos e passagens secretas,
suas mãos abertas... sem medo.
O maior desespero é morrer sem nada ter oferecido,
porque o que damos é realmente nosso.
A porquinha de ouro sepultada no jardim,
ficará para sempre
sepultada no jardim.

5 de fevereiro de 2008

Eu podo pessoas como podo jardins.

26 de janeiro de 2008

Andava o mais rápido que podia, sentindo o coração na boca, rolando sobre a língua, escorregando nas gotas de suor em suas mãos. Estava nervosa. Um nervoso de espera, um nervoso da sua idade avançada, pois nesse um ano envelhecera trinta e sete... Ajeitou a presilha no cabelo. Sua respiração amendoada. Arfar gélido.
Todos na rua passavam rápido, corriam, voavam. Ela não via.
Sentia-se só. Como se mais ninguém pudesse compreender a glória daqueles segundos que a separava dos braços incógnitos dele.
Um leve sorriso brincava no canto da boca: ar de quem sabe algum segredo
ou tem por quem estremecer – tinha por quem estremecer -
Seu corpo feminino arredondava cada esquina, cada curva da rua tornava-a mais serpente. Batom vermelho, mordidinhas no lábio superior. Olhares discretos. Silêncio das máquinas. O xale ouro desmanchando com os últimos raios de sol...
Vontade incontrolável de misturar no corpo dele.
Seguiu infinita, pairando a cinco palmos do chão. Flores e gritos esparramados pelo caminho. Cantos e patos silvestres dormiam em lagos artificiais.
Fechava os olhos e todas as imagens revolviam na memória.

Uma tontura.
Uma fraqueza.
Parou em frente à porta. Sininhos badalavam ao fundo numa trilha sonora discretíssima. Sabia que ele esperava porque sentira aquelas mãos agarradas em seus quadris a vida toda.
Porém, descido do céu, um gigante com olhos em chamas agarrou seus pés. Ela gritou e tentou enforcá-lo com seus versos. Abriu os olhos.

Estava deitada na cama numa típica manhã de segunda-feira, atrasada para o trabalho. Não viu o xale, o gigante. Nem tinha mais as flores. Pensou como a vida real é assustadora. E estranha.

24 de janeiro de 2008

Carta de amor que ficou na gaveta...

Seção especial 3

. .cartas. .


...essa é a carta mais sincera que já escrevi. Nas próximas linhas verá meu coração aberto, completamente aberto. Isso tem dois lados: o bom é que meus sentimentos vão rodopiar pelo seu quarto, correr por entre seus livros e fugir pela janela; o ruim é que talvez o sangue manche seu lençol...
Que dramática, deve estar pensando. Eu sei. Sei também que te amo desde o primeiro momento em que te vi.
Esses meses foram os melhores e piores da minha vida, porque já te quis como meu amigo, como irmão, já te amei como alguém da família, mas também, felizmente ou infelizmente, já te amei como mulher e sofri muito. No começo por pensar que você nunca sentiria nada. Depois, porque tinha você próximo e ao mesmo tempo distante. Com os dias, me contentei com um amigo. Mas aí, sofri mais, porque você foi um dos melhores que já tive. E me culpei por confundir as coisas.
Chorei tentando te esquecer, me convencendo que você não significava nada, inventando qualquer coisa para tê-lo perto, só um pouquinho. Passei por diversas fases, todas bem difícieis.
Nunca senti isso antes, e talvez por isso acreditava verdadeiramnete que se falasse contigo ia pensar que sou doida, sei lá... - a sensação que tenho é que te conheço desde sempre. -
Já reli essas linhas milhões de vezes imaginando você lendo tudo isso e me sentindo egoísta. Sabe, ... , você jura que não vai achar que sou maluca? Promete? Se mandar essa carta, agora que não aguento mais guardar tudo isso, tenta me compreender?
Já disse que você é lindo? Amo seu sorriso, suas mãos... o jeitinho engraçado, a inteligência, o modo como me respeita. Talvez já tenha dito que não gosto, mas gosto. Gosto de você até bravo. E quando fica triste tenho vontade de colocá-lo no colo e apagar seu sofrimento. Devia ser proibido as pessoas que amamos ficarem tristes...
Você é tão lindo, tão perfeitamnete imperfeito. E eu te amo. E me odeio por isso. Porque você nunca confunde as coisas e eu sim. E queria sumir para bem longe daqui... ! - comecei a falar e vou até o fim, apesar de estar doendo muito aqui dentro -
Outra coisa que preciso confessar é que esse ano fui fiel a você. Todo esse tempo não consegui olhar para mais ninguém, nem aqui ....., nem fora, nem em lugar nenhum. Isso não foi uma escolha, já que ninguém nunca me conquistou dessa forma.
Fiquei completamnete entregue, tão frágil como um cristal. Agora sinto que estou quebrada, arrassada em mil pedaços. E esse amor que está na ponta da caneta nesse instante está saindo tão violentamente que parece que vou morrer...
Meu amor, vou escrever isso aqui para matar a vontade:

Meu amor, meu amor, meu amor...eu te amo!
Aquele selinho que eu te pedi foi uma despedida!

Fica com o beijo que sempre quis te dar.

é agora:
é o FIM.



(Essa carta foi escrita dia 13/12/06. Depois de reler percebo os exageros, a visão imaginária, os amores platônicos impossíveis. Sinto que não é esse o caminho. Tão errado, torto, fora de forma. Tão morte quando deveria ser vida! Não quero mais assim... Aliás, meu medo é não querer mais de jeito nenhum.)

19 de janeiro de 2008

Quando abri os olhos essa manhã
abri os olhos por dentro
Cada órgão
todo o sangue
os anões que trabalham na minha sessão interna de R.H...

... todos olhavam para mim.
Quando abri os olhos essa manhã
tive medo
Apertei o lençol entre os dedos
mas ele escapou nos punhos da minha mãe
E acordei
por fora
- Por dentro continuo adormecida.
Sei que ele não virá
Tudo que aprendi até hoje na vida
é que não virá
“ não existe!!!”
Fica restrito a listas de papai-noel e coelhinhos da páscoa

Que ele não pode vir
já sei
Mas não sei por que
- E pode ser bobeira
sinto-o cada vez mais perto!
Talvez seja a voz da Loucura
valsando nos pensamentos
E não a dele
Os sonhos devem ser manuscritos de Freud
decifrados em parágrafos complexos
E não mensagens dele
O vento que invade meu corpo
quando penso em desistir
pode ser uma mera mudança de clima
um vento qualquer perdido nos cabelos
E não o sopro dos lábios dele...

Que seja.
que converse sozinha manhãs tarde noites
Desenhe versos nas paredes do mundo inteiro
seja expulsa!
Tenho o direito de endoidecer
Ouviram?
Tenho o direito de endoidecer!
Não podem evitar
que fique sã ou endoideça
que seja o frio ou o próprio sol
porque de amor hei de morrer!
Por mais fora-de-moda que isso seja.
De amor hei de morrer
porque o amor é:
(correspondido ou não
entre homens e mulheres, ou não
entres apenas bons amigos, ou não
palpável e engravatado, ou não)
- O melhor motivo para se morrer nessa vida. -
Ouviram?
O melhor!
Não quero morrer de doença no corpo
Resfriado
Ou com uma manga na cabeça.
De amor hei de morrer...





... cada santo dia
da minha vida eterna
ao seu lado

meu amor.

7 de janeiro de 2008




Essa minha mania de ser salva.

Essa minha mania obsessiva de ser salva por um príncipe.

Essa minha mania obsessiva de ser salva por um príncipe que nunca existiu.

6 de janeiro de 2008

o homem chove de dentro para fora
transbordando pelos olhos
o homem chove de fora para dentro
num beijo.



(clique na tirinha para aumentar!)
O mais estranho, meu amor, é que és meu amor - assim na segunda pessoa pra ficar mais bonito - És meu amor, tão belo, tão sublime! E ao mesmo tempo uma incógnita. Como posso me lançar nos teus braços se do outro lado não há redes de salvação?
Agora me diz, tuas palavras atadas às minhas em noites e noites em claro, teu sorriso, o carneiro: foi tudo em vão? Esqueço o caminho, retiro as migalhas de pão. Fecho as janelas, apago a luz. E fim?
Posso ser sonhadora demais. Jeito pré-adolescente de amar que nunca muda; mas não quero ter que constatar isso mais uma vez. Porque toda vez que amo, sendo certa ou errada, amo. Abro as janelas para o sol entrar. Acendo as luzes dos olhos, dos poros. Distribuo migalhas de pão, pedrinhas coloridas pelo caminho. Construo o caminho.
Se isso for errado, então prefiro errar pelo resto da minha vida.


Sentada na frente do monitor olho sua foto, imagino a forma dos seus dedos entrelaçados aos meus. O cheiro do seu cabelo, o tom da sua voz. Quebra-cabeças nunca foram minha diversão preferida, então eu deito de costas sobre o tapete e observo a lâmpada da sala. Milhares de formigas voadoras entram no bocal e morrem instantaneamente. Olho novamente suas fotos, seus recados... Estou apaixonada e não posso. Não, não posso. Não, não ,não.

Fecho os olhos e desejo ser uma formiga voadora.
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