20 de agosto de 2017

Tododia

Na estrada,
A caminho do trabalho,
Existe um moinho
Um trilho de trem
E um rio.
Se isso não for meio mágico,
eu não sei mais o que é.

15 de agosto de 2017

A valsa

A morte encostou os calcanhares nos meus. 
Quando ela realmente chegar
Estarei pronta? 
A morte roçou os ombros nos meus. 
Vou tirá-la pra dançar.

13 de agosto de 2017

Estão tentando matar 
Aquilo de mais bonito em mim. 
Contudo,
Sairei um dia, 
Batom vermelho, 
Pra dançar o fim do mundo.

11 de agosto de 2017

Cada nova lua dentro de mim 
É crescente mulher que descasca. 
A maré cheia rebenta na praia 
Pra minguar a minha casca.

5 de agosto de 2017

Na série da vida real
Sou a criatura que foge para as montanhas
E morre só.

28 de julho de 2017

Para o menino d’água.

Foi dolorido demais ver sua outra face afundando todo encantamento. Submarino meu,visitou o obscuro da sua persona pra dizer: “Flutua em direção à luz? Porque as trevas te roubam pra longe de mim. Daí, se no 'the end' a gente ficar, no vaivém líquido dessa existência, 
- Cê me ensina nadar?"
Nesse acontecimento terra e água repleto de abundancias, nosso riso fertilizará o mundo.
Agora é hora: cuida das minhas conchinhas e cuidado pra não quebrar tudo outra vez (você vai quebrar tudo outra vez, não vai?);
Eu te amo – incrivelmente - mesmo assim.

25 de abril de 2017

Sabe o que é mais bonito em você?
As suas ideias.

Posologia

Nos dias mais desesperados
Tenho sempre algum momento
Breve que seja
Pra de-desesperar um pouco.
Overdose de felicidade mata.
Normalmente ela é pequenos comprimidos,
de oito em oito horas.

29 de janeiro de 2017

Território desconhecido

Às vezes me pego querendo
Que seu amor seja feito o meu,
Mas amo dentro de um corpo feminino
Produzido em 1986.
Nós nunca estaremos do mesmo lado da ponte.
Resta enviar cartas, um ao outro,
- Como está o tempo aí?
Para tentar descrever o indescritível.
Você mora num corpo masculino de 1983,
Território desconhecido.
Gostaria imensamente que minhas mensagens chegassem,
Seja lá qual for o endereço do seu coração.

16 de janeiro de 2017

Barco de papel

Quando criança inventava as falas das pessoas na cabeça,
Mas nunca respondiam o que imaginei.
Quer saber?
Tudo bem essa mania controladora
Que sempre dá errado.
Tudo bem o universo inverter as coisas
Obrigando-me improvisar todo dia.
Sigo mapas,
Preciso atracar por aí, de vez em quando,
Seja meu porto seguro.
E se não for, paciência.
Navegar é preciso, viver jamais será.

14 de janeiro de 2017

Não contém

Tenho alguns pedaços soltos
Nos bolsos
Alguns versos inúteis
Nas mangas
Você se assustaria coma água do fundo do poço
Do meu poço?
Que me esforço todo (santo) dia para limpar
Enquanto terríveis pensamentos tentam turvá-la.
Em um mundo árido, me dou liberdade pra ser líquida.
Sou seu risco iminente de emborcação.

11 de janeiro de 2017

Las Moiras

Quando a luz cai,
Três mulheres me atravessam.
São bocas, cabelos e mãos
Movendo suas teias sobre mim.
Quando a realidade é previsível demais,
Elas desenham meu ponto de virada
A noite toda.
Mulheres aracnídeos são sempre surpreendentes.
Podem bordar sua vida toda,
Podem desfazê-la em um segundo.
Por isso madrugadas são traiçoeiras.
Quando amanhece, já não sabemos mais nada,
Nada está onde deixamos.

22 de dezembro de 2016

O parto.

Estou aqui,
Pés cambaleantes,
Diante da novidade.
Agora compreendo sobre corda bamba
Com igual ou mais propriedade que a equilibrista do circo.
Uma reunião (na minha cabeça) entre diversas personas
Convocou o parto:
A menina, com seu urso, chora.
A idosa, tricota roupas para cobrir vergonhas.
A mãe, abre os braços, emocionada.
Nascerá mulher
E todas unem-se para ampará-la no ar.
Agora compreendo sobre corda bamba
Com igual ou mais propriedade que a equilibrista do circo.
Não é sobre leis da física,

É sobre o nascimento da poesia.

5 de dezembro de 2016

O insustentável feminino

Tenho medo de cair,
Um dia nem mesmo as palavras me salvarem de mim mesma.
Tenho medo de nunca mais te amar.
Carrego um coração estranho
Que toca forte na superfície dos sentimentos,
Mas quando ascende,
Existe uma repulsa
De mim sobre o objeto amado,
Suspensa por fios de aço.
É parir ao contrário,
Porque eu, também eleita,
Herdei fio,roca, torre
E o medo de altura.
Não posso decidir sobre seu sagrado,
Quando você entrega em meus braços algo que posso massacrar.
Sou mulher, inauguro territórios desconhecidos,
Com uma força além de mim.
Podia estar tudo bem,
Mas minha Medeia engole
Tudo que não se opõe a ela com paixão.
Engrandece seu masculino,
Pois anseio, ardentemente, alguém tão inteiro quanto eu.

29 de novembro de 2016

Vó Preta

Essa noite te vi subir por um tapete florido.  Perdoe o espanto, não é todo dia que uma matriarca chega nas terras celestiais. Que surpresa boba a minha
por imaginar que você subiria de outro jeito, a não ser por um jardim.
Sabe, um dia li que já estive em seu útero, através da minha mãe:
Fica um pouco do seu queixo no queixo da sua neta...
Então, aqui estou, braços estendidos carregando sua bandeira.
Essa carta é pra dizer obrigada, vó, eu vou herdar você pra sempre.

28 de novembro de 2016

Existe uma casa escondida no meio da vida Portando o estandarte da resistência. Essa família carrega a profecia, O baque, Os mistérios. Carrega quem chega também, Para uma versão melhor de nós mesmos. Porque existe essa casa no meio da vida, Então nosso caminho há de ser radiante. Se há respeito nos propósitos, Orùnmilá: Faz de mim navegante.

27 de novembro de 2016

Olho-d'água

Vê?  
Meu corpo escorregando por entre seus dedos, 
É minha maneira de abraçar você como um rio. 
Sente? 
Meus pensamentos indo sondar seus desejos? 
Todas as vezes que tocar a liquidez do mundo 
Restará um pouco de mim aí dentro 
Porque nossas águas se misturaram um dia. 
Lembra? 
Naquele beijo.

23 de novembro de 2016

A primavera das lagartas

Um dia minha aluna chegou queimada de sol, descascando no rosto. Ela ficou tímida e não queria entrar, daí fiquei pensando em quantas vezes me privei por não achar minha aparência boa.
Quando uma pessoa próxima adoeceu, percebi que dias ensolarados voam como o tempo anda pra frente, e resolvi viver. Nos dias nublados, se estou insegura, um sorriso abre-alas ajuda embelezar as coisas.
Quanto a pequenina do começo da história, acabou ficando. Eu lhe disse que "lagarta precisa descascar pra virar borboleta" e ela entendeu. Crianças entendem sobre urgência rápidamente, bem mais rápido que os adultos.

20 de novembro de 2016

Êxtase

Todos desejos que tive,
Sonhos obscenos,
Todas as malícias,
Meu sangue quente por dentro
Criando universos inteiros
Com a ponta dos dedos.
Todos meus beijos, saliva, suor,
Meu feminino engolindo seu ser e lhe devolvendo mais adiante
Na eternidade.
Cada roçar de peles
Na combustão espontânea do meu coração no seu:
Foi verso.
Porque sou movida a palavra, meu amor.
Por isso,
Encosta sua literatura na minha
Antes das suas mãos tocarem meu corpo.
As letras serão cama dos meus quereres mais profundos
Pois são delas minha carne poética e animalesca.
Toca meus signos, pacientemente,
Que de beleza enfeitarei seu corpo.
E nosso princípio será Verbo.

14 de novembro de 2016

Sobre possuir as significâncias

Meu amor são fitas coloridas
amarradas nas barbas brancas das horas.
Meu amor são.
Apesar de tantas vezes louco
e outras tantas só...
Ele insiste em enfeitar plural por toda gente
porque salpicar universos inteiros na cor
é missão amorosa.
Não sei das coisas,
mas quando vislumbro esse sentimento,
possuo as significâncias do mundo.
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