5 de dezembro de 2016

O insustentável feminino

Tenho medo de cair,
Um dia nem mesmo as palavras me salvarem de mim mesma.
Você sabe como isso é amedrontador?
Tenho medo de nunca mais te amar.
Meu coração é estranho...
Ele toca forte na superfície dos sentimentos,
Mas quando destoca
Existe uma suspensão
De mim sobre o objeto amado.
Uma suspensão com fios de aço.
É parir ao contrário vida e morte.
Eu também, eleita,
Herdei o fio, a roca, a torre
e o medo de altura.
Não posso decidir sobre seu sagrado,
Quando você entrega em meus braços algo que posso massacrar.
Sou mulher, inauguro territórios desconhecidos,
Está além de mim.
Podia estar tudo bem,
Mas minha Medeia grita.
Se afaste, ela diz.
Sou força incontrolável como a terra engolindo
Tudo aquilo que não se opuser a ela com força, desejo, paixão.
Engrandece seu masculino,
Pois anseio ardentemente alguém tão inteiro quanto eu.

29 de novembro de 2016

Vó Preta

Vozinha,  essa noite te vi subir por um tapete florido.
Não é todo dia que uma matriarca chega nas terras celestiais.
Que surpresa boba a minha
por imaginar que você subiria de outro jeito, a não ser por um jardim.
Um dia li que já estive em seu útero, através da minha mãe:
Fica um pouco do seu queixo no queixo da sua neta...
E aqui estou, braços estendidos carregando sua bandeira.
Essa carta é pra dizer obrigada, vó.

Eu vou herdar você pra sempre.

28 de novembro de 2016

Existe uma casa escondida no meio da vida Portando o estandarte da resistência. Essa família carrega a profecia, O baque, Os mistérios. Carrega quem chega também, Para uma versão melhor de nós mesmos. Porque existe essa casa no meio da vida, Então nosso caminho há de ser radiante. Se há respeito nos propósitos, Orùnmilá: Faz de mim navegante.

27 de novembro de 2016

Olho-d'água

Você vê? 
Meu corpo inteiro escorregando por entre seus dedos? 
É minha maneira de abraçar você como um rio. 
Tocar você em estado de água 
É pra sentir o que ainda adormece no fundo das pedras
Pois temo a fúria da correnteza 
Cobrindo as águas límpidas do amor. 
Você sente? 
Meus pensamentos indo até você pra sondar seus desejos. 
Todas as vezes que tocar na liquidez do mundo 
Restará um pouco de mim, aí dentro. 
Porque nossas águas já se misturaram um dia. 
Você lembra? 
Naquele beijo.

23 de novembro de 2016

A primavera das lagartas


Minha aluna chegou queimada de sol, descascando no rosto. Ela ficou tímida e não queria entrar na escola, muito menos na sala. Daí fiquei pensando em quantas vezes me privei de algo por não achar minha aparência boa o suficiente. O corpo de verão, a calça da moda, o cabelo que não colaborava, sempre existiram muitas pedras no caminho da alegria.
Quando uma pessoa próxima adoeceu, caiu a bigorna da urgência sobre mim. Perder oportunidade de experimentar, brincar, rir sem culpa; perder a presença das pessoas um pouco mais, mais um dia, uma vez mais, é sem volta.
Os dias ensolarados voam (o tempo anda pra frente), porém pretendo agarrar todos os outros que derem sopa!
Peso, roupas, rugas, fios brancos, 'bad hair days' não me paralisam mais porque vou sorrindo abre-alas por onde quer que eu vá: esse é um jeito de embelezar tudo.
Quanto a pequenina do começo da história, acabou chegando perto. Eu lhe disse que lagarta precisa descascar pra virar borboleta e ela entendeu. As crianças entendem melhor que a gente.

20 de novembro de 2016

Êxtase

Todos desejos que tive,
Sonhos obscenos,
Todas as malícias,
Meu sangue quente por dentro
Criando universos inteiros
Com a ponta dos dedos.
Todos meus beijos, saliva, suor,
Meu feminino engolindo seu ser e lhe devolvendo mais adiante
Na eternidade.
Cada roçar de peles
Na combustão espontânea do meu coração no seu:
Foi verso.
Porque sou movida a palavra, meu amor.
Por isso,
Encosta sua literatura na minha
Antes das suas mãos tocarem meu corpo.
As letras serão cama dos meus quereres mais profundos
Pois são delas minha carne poética e animalesca.
Toca meus signos, pacientemente,
Que de beleza enfeitarei seu corpo.
E nosso princípio será Verbo.

14 de novembro de 2016

Sobre possuir as significâncias

Meu amor são fitas coloridas
amarradas nas barbas brancas das horas.
Meu amor são.
Apesar de tantas vezes louco
e outras tantas só...
Ele insiste em enfeitar plural por toda gente
porque salpicar universos inteiros na cor
é missão amorosa.
Não sei das coisas,
mas quando vislumbro esse sentimento,
possuo as significâncias do mundo.

29 de outubro de 2016

levitate

A conta é fácil: menos sapatos,
bolsas,
camisas
Te liberam o peso extra.
Tenho 30 anos,
Quanto tiver 60 não terei mais nada

E flutuarei.

20 de outubro de 2016

septem

Debaixo dos sete véus da minha alma
Existe uma donzela medieval.
Que se encontra atrás de sete portas,
Protegidas por sete dragões.
Quando você chegar,
E véu por véu desvendar,
Te darei sete beijos

Sob um céu de sete luas.

13 de outubro de 2016

Démodé

Às vezes sinto que já cicatrizou.
Às vezes dói como se um ponto
Sem nó,
Um fio sem pouso ou chegada,
Uma linha sem ouvidos
Arrebentasse tudo.
Tenho plena convicção que já cicatrizou.
Mas às vezes me dá vontade de costurar
Universos paralelos, contigo.
Alinhavando a sem-lógica da vida.
.
Caminho sobre os tecidos do tempo:
Talvez você esteja bordado fora de moda

(e de mim).

9 de outubro de 2016

Mostro minha beleza pra levar outras mulheres comigo. Florir é uma forma de homenagear todas elas que me trouxeram até aqui. Quanto mais bonita eu fico, mais quero tê-las ao meu lado. Não existe jardim de flor sozinha.

2 de outubro de 2016

A valsa das palavras

Às vezes penso que no final do filme você estará lá 
Pronto pra dar sua crítica firme e convicta 
E ouvir a minha 
Cheia de reticências. 
A febre foi tanta, que te esperei no final das séries, 
Dos livros que li, 
Na saída do teatro. 
Não precisa me amar pra sempre. 
Só precisa estar lá, pra sempre, falando comigo. 
Essa é minha prova de amor. 
Palavras são o caminho mais curto até meu coração.

3 de setembro de 2016

Esse cabelo cacheado meu?
Foi feito para você encher de flor.
Ainda dá tempo!

Volte antes da primavera chegar.

1 de setembro de 2016

Sem vaga

Existe um poema dentro de um ônibus lotado
Às 6 da tarde?
Numa fila de hospital?
No vazio da morte
Ou na dor?
Numa população esfomeada de livros,
habita algum lirismo?
Como escrever quando o corpo só quer descansar de tudo
E os olhos se abaixam
E as mãos enfraquecem
De abraços.
Da onde vem o verso
Quando só sobrou o osso?
Quem pode criar
Sem a argamassa necessária da esperança,
Amor,
Fé,
Em um mundo desesperado por pão,
Paz
E giz?
Leio os classificados do mundo:
não há vagas para a poesia.
Gostaria de ser a florista errante das ruas cinzentas
carregando versos como quem leva a própria vida;
A catadora de ossos no cemitério das palavras;
Gostaria que meu ofício fosse voz
além da minha cabeça,
mas estou cada vez mais só.
O caos engole os mortos,
Os vivos onde estarão?
Eu poderia escrever sobre tudo,
Deveria escrever porque o tempo está acabando.
Hoje só quero dormir:
Não há vagas para mim.

28 de agosto de 2016

Fico frustrada quando não são poesia comigo.
Esqueço que a poeta sou eu.

Das que não foram ditas.

Pequena, você foi umas das melhores coisas da vida. Não ficamos juntos, mas meu amor está. Compreende isso? É muito além da prisão corpórea, tenho tesão no seus versos livres, no seu jeito meigo de existir ao contrário. 
Aquela vez tive medo de te magoar e fugi. Fui covarde. Sei que encheu cada minuto até a dor ficar bonita, porque esse é seu maior dom: tornar suportável a máquina do mundo. 
Por favor, me livra da culpa de não ser seu companheiro da vida, não encher seu cabelo de flor, não te levar ao altar. São muitos nãos para nós dois, porém, um dia, vamos sentar pra conversar e tudo fará sentido, prometo. 
Enquanto isso vai amaciando a existência e sendo insuportavelmente feliz?
Um abraço cheio de silêncios.

25 de agosto de 2016

Sinal Aberto

Sinal fechado. 
Entregadores de papel calculam mentalmente os centésimos de segundo para correr às janelas sem serem atropelados. 
É tarde para fechar o vidro. 
Devo recusar educadamente? 
Devo fingir que estou ao celular? 
Uma moça de boné se aproxima. 
Droga, contato visual. 
Não tem mais jeito, pegue o papel rapidamente e acelere. 
Quanto desperdício de árvores. 
Quem lê essa porcaria? 
Pegue o papel, ela não tem culpa das mazelas do mundo. 
Droga, está sorrindo. 
O lixo do carro transborda. 
Não limpei semana passada? 
Posso pegar e jogar pela janela... 
Não.  
Seria massacrado. 
Pegue o papel e acelere, sem pensar, é o melhor a se fazer. 
Mão estendida: -Bom dia! 
Droga, mais contato visual, ela sorriu e me deu um bom dia mais feliz desse mundo. 
Bom dia sincero não estava nos planos. 
Recalculando a rota mental: 
Acho que gostei. 
Sinal aberto.

22 de agosto de 2016

De flor

No meu mundo
Quando alguém não te ama
Feito casal
Essa pessoa fica
Mesmo assim
Ela te acolhe em algum lugar do peito
É é sua amiga até o fim.
No meu mundo
O amor se transforma
E o ser "rejeitado"
Não se sente preterido de maneira alguma
Ele pode chegar a qualquer momento
Para repousar suas retinas fatigadas
Das pedras no caminho.

Ah, quanta bobagem!
Nesse país é proibido sonhar.
Então sossegue, Carlos...
Pois um sentimento de amor
É flor que nasce no asfalto.
Nem todos estão prontos para
Abraçar esse milagre
Que ainda resiste
Num mundo caduco
De tédio, nojo, ódio,
Mas também, e principalmente, 
de flor.

19 de agosto de 2016

Senhor, livrai-me dessas cantadas baratas
Dessa gente vazia
Me ajuda a gostar tanto de mim
Que não precise descer ao inferno
Só pra ter uma ilusão de companhia...

18 de agosto de 2016

Errante

Hoje, na estrada, havia neblina
Numa quase experiência de limbo.
O limbo é o lugar onde as almas esperam por redenção.
E, surpreendentemente,  me sinto parte dessa atmosfera
Como se estivesse sempre
No meio do caminho
Como se, na noite da criação,
Minha alma fosse mergulhada em obscuridade.
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