24 de maio de 2020

Em dobro.

Nessa quarentena escutei seu nome quarenta vezes 
Desenhei seu rosto quarenta vezes 
Cantei nossa canção quarenta vezes 
Chorei quarenta e uma vez que durou a noite toda. 
Nessa quarentena nutri meu amor-próprio quarenta vezes 
Revisei meus motivos outras quarenta 
Mordi os lábios quarenta vezes 
Enlouqueci quarenta e uma vez que quase te liguei. 
Não liguei. 
Nessa quarentena seu fantasma me assombrou quarenta vezes, 
Mas ressuscitei oitenta 
Eu sempre me reconstruo 
Em dobro. 
Ser ímpar é resistência.

20 de abril de 2020

Matriosca

Estar isolada dentro do isolamento 
É ficar numa caixa dentro de outra caixa.
Hoje, espiei pra fora: olá, mundo exterior. 
Esse dom para reinventar está aqui. 
Tomo posse de mim mais uma vez.

18 de abril de 2020

Joia da semana

Hoje é sábado 
Então me permito alguma alegria. 
Abro as janelas 
Canto desafinado, 
Porque é sábado, afinal! 
Não tem vírus, medo, tristeza que apaguem essa luz: 
Confiar é extremamente luminoso. 
Tenho tudo e mais um pouco para dividir.
Hoje é sábado, o amanhã se basta. 
Brindemos esse presente.

4 de abril de 2020

Boletim da quarentena10: encontrei a trilha de Amélie Poulain. Nota mental: tocá-la ao subirem os créditos finais.
Boletim da quarentena9: não sei escrever textos felizes mais. Por favor, imagine um emoji engraçadinho bem aqui.
Boletim da quarentena8: qual o nome do filme? Workaholic à beira de um ataque de nervos.
Boletim da quarentena7: relendo livros antigos desconfio de duas coisas: ou eles eram muito diferentes ou eu li tudo errado.
Boletim da quarentena6: açúcar e mais açúcar. Minha ansiedade nunca pede alface.
Boletim da quarentena5: ouvir músicas antigas é uma faca de dois gumes: pode salvar ou afundar mais ainda. Crie sua playlist com precisão cirúrgica em momentos de crise.
Boletim da quarentena4: eles dizem que quando a gente morre a vida passa na frente dos olhos feito um filme. A iminência da tragédia é um vale a pena ver de novo todo dia, com close nas partes erradas.
Boletim da quarentena3: gostaria de salvar alguém com meus textos, isso é possível? 
Ou é só uma maneira desesperada de não me sentir tão sozinha? 

Boletim da quarentena2: tem dias mais fáceis. 
Tem dias mais difíceis. 
No espaço entre eles, eu danço.

1 de abril de 2020

Vocês são importantes.

Boletim da quarentena: tem alguém aí? 
Estou descobrindo cantos da casa inexplorados,
Cantos de mim, quase intactos. 
Tem alguém aqui? 
Vejo números e mais números na tv. 
Quem eram essas pessoas? 
Elas cantavam no chuveiro, faziam palavras cruzadas, sonhavam em conhecer outro país? 
Não quero ser estatística também, 
Sou professora. 
Tinha aulas todos os dias sobre ser gente. 
Humana. 
Não número. 
As crianças me ensinaram, pacientemente, sobre a vida. 
Tenho medo de esquecer, 
Ou não ter aprendido o suficiente. 
Elas ensinaram, sobretudo, não coisificar pessoas. 
Por isso, guardo aqui a memória dos que se foram
Vocês são importantes.

21 de março de 2020

Batismo

Eu sei como falar 
Porque pego sapiência com a minha criança 
E digo minhas pequenezas de ser gente. 
Importância das coisas humanas nem sei se tem,  
Mas ela não importa se é necessária. 
Ela existe e pronto 
E existindo, diz. 
Às vezes, me acorda 
Puxando o cabelo: 
- Precisa ser agora? - manifesto. 
Urgência é para criança. 
Eu chamo poema, ela chama brinquedo.
Faz festinha quando canto no delírio dela. 
Quando estou triste, pra morrer, 
A menina inverte e canta pra mim: 
Desconfio que me batizou na infância.

5 de dezembro de 2019

Sobre o eterno retorno

Desenha um coração na contracapa do meu livro? 
Quero me apaixonar antes do final dos tempos. 
Pois só amor me arrasta pra dentro e fora de mim mesma. 
O que eu vivi nesses últimos dias foi sobre separação. 
A dor me ensinou muitas coisas. 
Mas agora estou aqui, oferecendo minha contracapa pra você 
Justamente porque aprendi muitas coisas. 
Tenho avessos terríveis, 
(Quem não tem?) 
Mesmo assim ainda vale explorar o universo alheio. 
Também tem o lance do final dos tempos que acrescenta um caráter urgente tão 
“Cantada barata” 
Porém eficaz. 
Ah, quer saber? 
Eu topo tudo de novo. 
E você?

7 de novembro de 2019

A ceia

Sonhei contigo, 
Mas achei a realidade mais onírica 
Do que o devaneio realístico da minha mente. 
É minha nova habilidade para concretizar amor. 
Por isso, vem pra perto ainda hoje na ceia sagrada que te proponho: 
Serei pão e vinho materializados, 
Porque nem minha carne, nem meu sangue carecem alegorias. 
Só afeto
E tesão. 

 (Registro aqui a beleza corpórea do nosso enlace)

O brinde

Quero reencontrar minhas vulnerabilidades
como velhas conhecidas na mesa do bar: 
- Oi, vocês cresceram! 
- Pois é, estamos cada dia mais frágeis, olha aqui essas feridas, 
essa poesia irremediável, 
essa pressa de ser feliz.
Então pedirei:
- Uma dose, por favor, para o brinde dos sobreviventes!

23 de outubro de 2019

Arrumação

Cada sentimento em um pote colorido.
Estou organizando meu mundo interior. 
Carência sempre fica no frasco maior 
Sem nunca preencher o vidro. 
Quando a visita chegar, quero estar presente. 
Estou faminta por compartilhar a minha vida. 
Meu ofício: catalogar coisas que doem e brilham, 
Sabendo que as primeiras lotam mais prateleiras que as últimas. 
Sabendo que as últimas iluminam a casa toda! 
É quando tudo, inexplicavelmente, encontra seu lugar.
Escrever é codificar arquivos invisíveis.

17 de setembro de 2019

Sobre banners e fichas que caem de repente

Cena: loja de departamento. 
Eu com uma mochila gigante nas costas, saindo, duas pessoas entrando na tal loja, recuo rapidamente para esquerda, mais pra não ser atropelada, menos por gentileza. A bolsa bate no cavalete que cai estrondosamente com o banner da coleção primavera-verão. 
Silêncio. 
Agacho desajeitada e roxa de vergonha. Um mocinho uniformizado vem solícito. Entro em modo automático: 
- Moço, desculpa, eu sou um DESASTRE. 
Ele se agacha pra ajudar: - Imagina, moça! 
Mas penso, numa fração de segundo e conserto: 
- Não. Não sou um desastre. Tô tentando fazer o melhor que eu posso. 
Silêncio. 
Ele sorri estranho, me achando louca da cabeça e possivelmente uma pessoa violenta. Saí saltitante com minha resposta. Levou tempo para conseguir dizê-la. 
Autoestima também se constrói em shopping centers.

4 de setembro de 2019

Insistência

Daí seu dia foi ruim. 
Seu crush está namorando. 
Você perdeu o ônibus. 
Seu corpo dói de tanta canseira. 
O dinheiro sempre acaba antes do sonho. 
Mas teve uma pomba no caminho. 
No fim da tarde bateu um vento no rosto. 
Sua aluna aprendeu aquela tarefa que você passou há uma semana. 
Tentarei mais uma vez amanhã. 
Estou nessa de não desistir há trinta e três anos. 
Conheci uma senhora de oitenta. 
Ela brinca disso há mais tempo que eu. 
Ela viu mais pombas, ventos e crianças do que eu. 
Acho bonito quem possui essas riquezas no corpo. 
Desejo para minha velhinha futura muita insistência nessa vida.