28 de agosto de 2016

Fico frustrada quando não são poesia comigo.
Esqueço que a poeta sou eu.

Das que não foram ditas.

Pequena, você foi umas das melhores coisas da vida. Não ficamos juntos, mas meu amor está. Compreende isso? É muito além da prisão corpórea, tenho tesão no seus versos livres, no seu jeito meigo de existir ao contrário. 
Aquela vez tive medo de te magoar e fugi. Fui covarde. Sei que encheu cada minuto até a dor ficar bonita, porque esse é seu maior dom: tornar suportável a máquina do mundo. 
Por favor, me livra da culpa de não ser seu companheiro da vida, não encher seu cabelo de flor, não te levar ao altar. São muitos nãos para nós dois, porém, um dia, vamos sentar pra conversar e tudo fará sentido, prometo. 
Enquanto isso vai amaciando a existência e sendo insuportavelmente feliz. 
Um abraço cheio de silêncios.

25 de agosto de 2016

Sinal Aberto

Sinal fechado. 
Entregadores de papel calculam mentalmente os centésimos de segundo para correr às janelas sem serem atropelados. 
É tarde para fechar o vidro. 
Devo recusar educadamente? 
Devo fingir que estou ao celular? 
Uma moça de boné se aproxima. 
Droga, contato visual. 
Não tem mais jeito, pegue o papel rapidamente e acelere. 
Quanto desperdício de árvores. 
Quem lê essa porcaria? 
Pegue o papel, ela não tem culpa das mazelas do mundo. 
Droga, está sorrindo. 
O lixo do carro transborda. 
Não limpei semana passada? 
Posso pegar e jogar pela janela... 
Não.  
Seria massacrado. 
Pegue o papel e acelere, sem pensar, é o melhor a se fazer. 
Mão estendida: -Bom dia! 
Droga, mais contato visual, ela sorriu e me deu um bom dia mais feliz desse mundo. 
Bom dia sincero não estava nos planos. 
Recalculando a rota mental: 
Acho que gostei. 
Sinal aberto.

22 de agosto de 2016

De flor

No meu mundo
Quando alguém não te ama
Feito casal
Essa pessoa fica
Mesmo assim
Ela te acolhe em algum lugar do peito
É é sua amiga até o fim.
No meu mundo
O amor se transforma
E o ser "rejeitado"
Não se sente preterido de maneira alguma
Ele pode chegar a qualquer momento
Para repousar suas retinas fatigadas
Das pedras no caminho.

Ah, quanta bobagem!
Nesse país é proibido sonhar.
Então sossegue, Carlos...
Pois um sentimento de amor
É flor que nasce no asfalto.
Nem todos estão prontos para
Abraçar esse milagre
Que ainda resiste
Num mundo caduco
De tédio, nojo, ódio,
Mas também, e principalmente, 
de flor.

19 de agosto de 2016

Senhor, livrai-me dessas cantadas baratas
Dessa gente vazia
Me ajuda a gostar tanto de mim
Que não precise descer ao inferno
Só pra ter uma ilusão de companhia...

18 de agosto de 2016

Errante

Hoje, na estrada, havia neblina
Numa quase experiência de limbo.
O limbo é o lugar onde as almas esperam por redenção.
E, surpreendentemente,  me sinto parte dessa atmosfera
Como se estivesse sempre
No meio do caminho
Como se, na noite da criação,
Minha alma fosse mergulhada em obscuridade.




16 de agosto de 2016

Encontrar uma afinidade intelectual entra na categoria 'milagre'? Dentre bilhões de pessoas, minha tragédia é procurar, eternamente,  meu próprio reflexo?

15 de agosto de 2016

Através

Você nunca escreveu um poema sobre mim.
É assim que uma poeta descobre quando o amor
Não está
Onde deveria estar?
Você nunca escreveu um poema sobre mim,
Mas aposto que meus fantasmas são velhos conhecidos seus.
À noite
Na sua vigília, eles vagam.
Eu escrevi muitos poemas sobre você.
Quando sua assombração atravessa as paredes do quarto
Pego a caneta
E faço círculos de palavras
Em volta do meu coração.
Feitiços sobre suportar sua ausência,
Sobre fazer poemas sobre você...
Não é meigo
Nem poético
Nem acredito que seja amor.
É sobre sobreviver, apenas.
Você nunca fez um poema,
Talvez tenha medo
Que leia cada entrelinha sua,
Sem saber que já sei tudo.
Você é livro aberto, meu bem.

Eu também.

6 de agosto de 2016

Coroação

Diz que meu amor não é tolo
E assopra minhas lágrimas até o mar.
Diz que meu amor é sublime
E carrega meu coração ao altar.


4 de agosto de 2016

Acordei com trinta anos
Vendo insetos feito Kafka:
 pelo lado de dentro.
Sou um animal ensopado de desejo.
Se escrevo alucidadamente é porque estou morrendo.
Não preciso de aplicativo
Para caçar poemas.
Ao invés de achá-los,
São eles que me encontram.
Volte rastejando
Admita seu erro
E me encha de flor

2 de agosto de 2016

Submundo

Escrever, para alguns, é adentrar sonhos. Para mim, é âncora que prende à realidade. Tenho medo de soltá-la e jamais encontrar o caminho de casa.

1 de agosto de 2016

Sobre como gostaria de acreditar que não foi em vão.

Ok, façamos um trato:
Você se compromete a me encontrar nos sonhos
Para continuarmos nossas conversas infinitas
E não conto pra ninguém.
Preciso te falar sobre a nova série que assisti
Aquela banda incrível
- como não ouvimos antes! -
Sobre o livro de suspense do King.
Eu sei, é idiota.
Você tem outros planos para seus sonhos.
Só quero sentir, uma vez, que abrir o peito vale a pena, sabe?
Que do amor, por mais errado, torto e não - correspondido ficou alguma coisa.
Não tenho esperanças vãs
Nem desejos impossíveis
Mas, se a amizade for real, sempre existirá um jeito para arrumar as coisas.
Tem dias nos quais me culpo por tudo, pela carência excessiva
Por não compreender os sinais.
Como fui ingênua!
Depois agradeço o passado, com todas suas consequências
Porque eu estava lá e amei de verdade.
E é ele, o amor, que será meu advogado nos dias de escuridão.



29 de julho de 2016

Férias - 2016


28 de julho de 2016

Metamorphosis

Existe uma lagarta na gente. 
Tenho uma aqui dentro. 
Não sei bem ao certo a data precisa 
Em que apareceu. 
E eu 
Que nunca tive gato 
Nem passarinho, 
Que nunca ganhei tartaruga 
Nem cachorro, 
Passei a criar inseto. 
.
Durante a noite, quando tudo silenciava, 
ouvia suas patas sob os móveis 
Da minha cabeça. 
No começo, achei graça: 
Tão miúda a bichinha! 
Ela me fazia companhia, 
Alimentando meus delírios 
Cada vez mais sombrios. 
Mas os dias seguiram 
E a criatura cresceu além do aceitável. 
Não podia admiti-la ameaçando minha solidão. 
Quis assassiná-la. 
.
Estava frio, deitei sua cabeça no colo. 
Ficou quieta. 
Uma das minhas mãos segurava seu corpo, enquanto a outra, firme, 
desenhava movimentos rápidos. 
No começo foi silêncio. 
Um vazio, mais nada. 
Entretanto, misteriosamente,  os ruídos retornaram 
Pouco a pouco 
Feito dedos diabólicos tamborilando meu juízo. 
- Não pode estar viva, está feito - eu gritava. 
.
Nunca mais subi ao sótão da mesma maneira. 
Hoje, quando os monstros crescem demais 
Procuro por mensagens escondidas em lugares improváveis. 
Mesmo que pareça insana, 
E talvez seja, 
Quero muito acreditar nas borboletas. 
Não vou mentir, muitos planos de morte se seguiram, 
sucedidos por tantos outros renascimentos sem explicação, 
Mas tive uma escolha:
Escolhi viver.

26 de julho de 2016

Maturidade

Pronto. É o fim declarado.
Sem gritos de bomba
fogos
Nem som
Só silêncio.
Morrer com educação.
Sem vingança
Sem aparecer na porta da sua casa
Depois de ligar incessantemente
Na madrugada.
Sem rímel na camisa branca.
Essa é a etiqueta
Do fim.
De uma dor canalha que vem sem boas maneiras
Mas havemos de ser fortes
Havemos de ser frias
Havemos de esconder
Nossos ruídos
Para ser bem mais feliz.
Só que havemos eu não posso
Havemos eu não quero
Sou barulhenta bem alto
E vou quebrar o seu nariz.

6 de julho de 2016

(...) sem perder a ternura.

Noite passada encontrei minha menina: doce, vestido rodado e longos cabelos.
- São muitos os lobos, você precisa crescer - expliquei.
Aquele ser encantado não questionou, apenas sorriu e adormeceu nos meu braços de "adulta responsável".
Foi velando seu sono que, finalmente,  compreendi.
Ela não pode ser o que sou, sendo parte tão importante de mim. Se morrer, como reconhecerei a pureza do mundo? Como entenderei os olhos de uma criança? Como encontrarei o amor?
Minha pequena precisa existir pra que eu exista completa.
Sou forte, posso cuidar dela, bem como consolá-la quando a realidade é cinza, mas não consigo sozinha. Preciso da criança porque sou infância também.
E, ademais, posso ser várias: mulher é desdobrável, não é, Adélia?
- Nós somos.

27 de junho de 2016

Sobre a caixa (que não é de Pandora)

Tinha uma penca de monstros debaixo do meu coração.
Todas as noites olhava cada um deles, numa inspeção rotineira.
Mas você desamarrou tudo!
Agora não sei como fazer
Pra por as coisas no lugar de novo.

Eu tô parecendo carente, sensível e derretida.
Não era pra ser assim.
Tinha monstros que me ajudam na defesa do território.
E prometi deixá-los lá
Numa convivência pacífica
Numa convivência calculada
Até você me invadir
Sem deixar nada.



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