12 de junho de 2019

Pra gente se desprender

É, não deu. 
Estou quebrada. 
Tem uma música em looping no meu radinho de pilha. 
Estou torcendo pra acabar, a pilha, a música, 
Porque minha cabeça anda sem freios no imaginário. 
Ontem fui tão longe que nem sabia voltar. 
Na verdade, se eu pudesse, queria dizer que 
Meu breve livro de aventuras foi atualizado com sucesso. 
Você transformou coisas. 
Quando o mundo apagar, ninguém lembrará mais. 
Então, escrevam no livro do universo: ele chegou e inventou dias bonitos. 
Isso importa? 
Isso importa (pra mim). 
Obrigada.

27 de abril de 2019

Sobre a impossibilidade de controle ou o desejo por leveza

Das piores manias minhas 
É querer a perfeição de tudo. 
Das pessoas. 
De mim. 
No fim da história, nem eu 
Nem ninguém consegue, 
Bate a bad, 
Estou sempre só. 
Uma velha imperfeita, solitária, 
Cheia de gatos, 
Será sempre uma opção para o futuro.

6 de abril de 2019

Sobre (sob) lençóis.

Tá bom. 
Sou louca mesmo, admito. 
Penso coisas improváveis nas horas mais inadequadas. 
Daí vou desenhando um rascunho até seu coração. 
Tenho pontes de lugar algum, 
Ruas sem endereço. 
Palavras deságuam da boca sem filtro 
- Meu deus, o que disse? 
Foi maluco, eu sei. 
Mas tão amoroso é meu amor. 
Você não tem a dimensão 
Do tanto que posso acolher nós dois. 
Roubo seu lençol de noite 
Para tê-lo por perto, tentando pegá-lo de volta. 
No meu mundo perfeito existem dois lençóis diferentes e gigantescos para cada um, 
mas na nossa realidade a gente divide. 
Eu gosto de estar no mundo contigo 
Por mais que seja difícil às vezes. 
Por mais que dividir não seja meu forte. 
E tem dias que você me ensina 
E tem dias que eu te ensino. 
No meu universo fantástico, boto a toalha para tomar chá, 
Então você chega com seu café preto sem açúcar, 
Trazendo mil saídas para os problemas da vida. 
Você é meu Gato de Cheshire, 
Eu, sua Alice. 
E essa é nossa metáfora (brega) de amor. 
Mas não importa: eu te amo.

10 de março de 2019

Para o maior coração encontrado na face desta Terra

Querido cúmplice: 
Queria que soubesse dos jardins destruídos, 
Dos animais machucados em batalha, 
Das tempestades. 
Leva tempo para arrumar a casa 
Novamente 
Mas estou disposta. 
A disposição é meu melhor presente. 
Gostaria que ficasse por tempo indeterminado.

7 de março de 2019

Sobre ter um estalo às 5 da manhã

Meu sangue volta para a terra. 
Meu aprendizado volta para meus alunos. 
A vida é um eterno devolver-se. 
Assim como o monociclo tem como regra principal o movimento, 
A existência tem a gratidão.

21 de fevereiro de 2019

Meio-dia

A Esfinge das aulas de leitura atravessou meus pensamentos. 
É interessante como o fora reflete o interno milimetricamente. 
São enigmas, à porta de Tebas, meio-dia. 
É meu medo da travessia. 
Mulher, águia, leão, serpente, compõem meu coração. 
A resposta também sou eu.

20 de dezembro de 2018



O verão está aqui. Ciclicamente ele sempre retorna, mas dessa vez estou melhor. Observo meus seios fartos com espanto, como se quisesse conhecê-los. Olho minhas coxas dando voltas por aí, saltitantes. Os cabelos, mais curtos, tão leves, ligeiramente rosados e únicos. Sempre desprezei essa estação, porque nunca estava boa o suficiente para ela. É construção antiga, um pouco mais de trinta anos. O verão está em minhas pernas e braços. Eles dançam, deliram e correm. Eles nadam. Tomam sol. Jogam bola. Meu corpo é sagrado. O verão sou eu.
Querido, declare-se. 
Só amor pode salvar essa gente.

16 de dezembro de 2018

Universo (mágico) paralelo



Nos preparamos com antecedência: 
Roupa, pão, transporte, economias, flores, paz. 
Tecemos amores, rezas, 
Construímos a tela mental primorosamente. 
A roupa rasgou, tamanho o corpo que não cabia em si, 
A hora apertou contra a parede, tantos imprevistos! 
Mas triunfamos. 
Lembro do salão em festa, 
Enfeitado de amigos. 
Do calor, 
Abrindo espaço em cada abraço. 
A energia caiu pra mostrar que cantamos à capela, se for o caso! 
Cada festival é assim, único. 
Mãos dadas nas mãos dadas até formar um círculo e abraçar a Terra. 
Ficou a lembrança. 
O resto, é dança.

14 de dezembro de 2018

Elo

Depois de provar o etéreo,
Tudo quer conversar comigo. 
Forças me pegam pelo braço e sinalizam 
Em poemas, ou canções, 
Em sonhos, ou pessoas. 
O mistério me abraça. 
Eu, comovida, abraço de volta.

13 de dezembro de 2018

Bem-me-quero

Foi no álbum de figurinhas 
Onde aprendi poesia. 
Não com os versos, simples, rimados, 
Mas com as vidas contidas em cada cena. 
Deixei as mulheres falarem, 
Era minha voz. 
Foi assim.

11 de dezembro de 2018

Sobre Nando e Cássia

Não uso all star azul 
Nem preto de cano alto 
Meus amigos foram partindo de mim 
E eu deles 
Porque vivo num vazio inconsolável. 
Meu coração é cercado por crocodilos selvagens.

2 de dezembro de 2018

Crítica sobre método avaliativo ou tratado sobre liberdade.

Ambiente gelado.
Janelas pintadas de maneira que não se veja o exterior.
Carteiras enfileiradas.
Paredes lisas, cores sóbrias.
Pessoas com rostos comuns.
Uma garota pede: Alguém tem caneta preta?
Silêncio.
Ninguém preparado para ruído.
A fiscal pega meu dedo e passa numa tinta escura, fico observando minha impressão digital no papel. 
Meu dedo e o dela, um instante apenas,
O único contato humano até o momento.
Cinquenta questões objetivas, múltipla escolha.
Escuto distante um pássaro do lado de fora. 
Esqueço da pergunta que acabara de ler.
Silêncio.
Nem tudo está perdido, tem uma crônica do Moacyr Scliar e uma tirinha genial do André Dahmer. 
Humor ácido em ambas.
Há quanto tempo estou aqui?
Envelheço.
Passo por matemática, com alguns ferimentos,
Derrapo nos pensadores, tantas teorias sobre a educação que nunca usei, eu penso.
Ainda tem a redação.
Rascunho muitas coisas, apago.
Tese, antítese, será que meu texto ficou esquerdopata demais?
Apago.
Melhor aparentar neutralidade, concluo.
Não consigo.
Foda-se.
Passo a limpo.
Foram três longas horas.
Será que está claro ainda?
O corpo dói.
Tem as questões de chutar. Ô saco, deveria ter chutado antes.
Vontade de urinar. 
Tem muita gente na fila.
Já está quase na hora, o som exterior distrai minha cabeça.
Entrego a prova com urgência, preciso sair. Rápido.
Você prestou para quê?
Para trabalhar com crianças, acredita?
Sigo dois, três, dez quarteirões sem rumo. 
Finalmente livre.

Convite

Cara colega, 
Essa carta é para lhe dizer sobre ele. 
Como em tão pouco tempo 
Foi certeiro o golpe na autoestima 
Devido a uma canalhice sem precedentes. 
Aprendi como é ser tratada como objeto apenas 
Num relacionamento doente. 
Escrevi tratados sobre inveja, ciúmes, violência 
Para ninguém passar por isso 
Nunca mais. 
Então vi que a nova vítima é você 
E gostaria de alertá-la. 
Também não sei se me ouviria 
Porque fomos condicionadas a ser inimigas. 
- Inimigos não dividem informações privilegiadas. 
Gostaria que fosse diferente dessa vez 
O mal perdendo forças, 
A gente ganhando liberdade. 
Estou aqui se precisar 
Vamos conversar?

30 de novembro de 2018

Tenho vários dias em 2018 que não me lembro especificamente, sem canção, amor, ou livros. Eles são as pausas necessárias entre uma epifania e um sobressalto. A vida não é Instagram.
Reprovar um aluno é um movimento interno, porque acaba mexendo com a gente também. Fico pensando nas possibilidades perdidas ou ganhas, nas amizades desfeitas ou novas. São vidas, é minha vida também. Sabedoria é meu pedido de Natal.
Ultimamente os textos saem tortos, doloridos, inacabados. Antes, tinha uma velocidade em dizer. Agora, estou precisando escutar.

28 de novembro de 2018

Sobre elefantes e bailarinas

Saí do trabalho, cansada, sem dormir direito, numa TPM desgraçada, entrei no ônibus e senti vontade de chorar. 
É uma viagem longa, tempo suficiente para filosofar. Daí pensei: as qualidades são bailarinas suaves flutuando por aí; defeitos são elefantes desastrados numa loja de cristais. O mais maluco é que perfeição também enche o saco, bem como falhas nos tornam humanos! Por que amaldiçoamos tanto nosso pior lado? 

Fiquei um bom tempo nessa metáfora, desconstruindo-a para me divertir um pouco, imaginando elefantes de tutu e bailarinas possíveis. Perdi o ponto da descida. 
Estava cansada, sem dormir direito e agora, misteriosamente, sem vontade de chorar. Minhas últimas forças foram usadas para voltar pra casa, dessa vez, sem metáforas.

18 de novembro de 2018

Afeto

Banho seguido do sutiã mais bonito: 
Aquele preto rendado com calcinha combinando. 
Babados nas mangas, 
Uma bermuda jeans escuro, cinto marrom. 
Duas gotas de lavanda atrás das orelhas seguidas do suspiro profundo – para ocorrer simbiose entre perfume e espírito. 
Na bolsa: tic -tac, celular, cartões, um bilhete amassado, caderno de anotações (caso um poema surja), canetas sem tampa, grampos. 
Cabelo à la Botticelli desce encaracolado até o ombro como serpentes hipnotizadas pelo vento. Ondas douradas. Nada de colares ou pulseiras, apenas um sorriso marfim correndo entre os lábios rosados, carnudos, molduras perfeitas para Natureza dentro e fora dela. Dona do tempo. Faz chover nas roseiras. Sua timidez é o mais puro encantamento herdado das fadas. Seria a voz mais calmante dessa Terra, ou aqueles olhos úmidos, pequeninos no tamanho e grandiosos na luz? 
Começo a considerar a possibilidade de estar diante de um ser translúcido, inquebrantável e fértil, personificação sagrada da vida. Logo eu, anjo da guarda experiente, anos prestados à obra maior, serei julgado por quebra de contrato, pois prometi acompanhá-la nos percalços da existência e me encontro irremediavelmente enamorado. 
Ó Deus, perdoai minha falta. Ou meus excessos. Seria impossível não me derreter em amores infindos, pois convivendo tão perto pude ver o esplendor desse ser. Entrego meus títulos, abandono tudo, mas não me prive dessa companhia até o último suspiro. Até nos juntarmos novamente para que eu possa tirá-la para dançar.

16 de novembro de 2018

Chamado

Querido, estou aqui. 
Cheguei a ponta de mim, ao topo, ao cume, 
Estou de braços abertos gritando poesia do alto. 
Você pode escalar, ficar me olhando, 
Pode até ir, se quiser. 
Preciso saber quem estará ao meu lado porque é hora, 
O mundo está posto. 
Estou aqui, no alto de mim, perto das nuvens, 
E tudo é claro: 
Há muito trabalho a ser feito. 
Existe sempre o risco da queda, mas o céu noturno está uma beleza. 
Posso contar contigo?