2 de novembro de 2010

Ao desconhecido

Foi emergir do lago seguro
Onde afundava minhas crenças
Foi conhecer você
Com seus enredos
sobre o voo.
Foi apenas espiar do outro lado
E fiquei um vazio de queda sem fim.
Tão confortável diluir-me entre sereias
Por que diabos tinha que ser insaciável criatura?
Esse poema é feito às pressas
Para não ansiar além das minhas forças
E sumir.

Planto letras na folha em branco
Sem paciência de esperá-las galhos.
Vou desgastar os versos
Para não quebrar o telefone.
Não tem poesia nenhuma:
É desespero.

6 de outubro de 2010

Sobre as sementes.

Tenho alunos poetas
Poetas alunos doces
Que escrevem em diários azuis.
Tenho alunos mistérios
Que se revelam para mim feito conchas escuras.
Descubro, nas entrelinhas, pequenos universos
Azuis.
Tenho alunos poetas
Que fazem esse poema existir.
E ao lê-los, tenho fé nas letras,
Nos livros,
Na vida.
Tenho alunos poetas que são poesia por inteiro
E nem desconfiam.
Iluminam minha origem
Minha esperança.
Escrevem sem pretensão e são os maiores escritores que li na vida.
Porque são um pouco de mim.
Mais muito além de mim.
Isso é tão bonito que não cabe no poema.

7 de setembro de 2010

Sobre ele

Se você voltar a tempo
nós vamos sair pela cidade escura.
Vou contar os prédios novos e abrir metade do vidro para
não desmanchar nosso amor.
Se você voltar, vou separar
o dinheiro exato da felicidade,
pedir duas taças de sorvete derretido
e você vai ficar derretido comigo.
Gosto quando atende o celular no caminho de casa
porque sei que tem um fio invisível
trazendo você pra mim.
Você odeia celular, eu amo.
E quando te perco para o trânsito,
brinco de te maldizer, sem culpa.
Querido pai, espero feito cachorro na porta
até seu carro encostar.
Tenho saudades em cada brechinha
de distância real ou imaginária.

Você é meu melhor amigo.

8 de agosto de 2010

(...) ências

Sonhar é quando Deus assopra nos ouvidos

os planos

depois tudo apaga com um beijo

e acordamos

cara amassada

uma canção na ponta da língua

que não sai

que não vem

e passamos a vida inteira nesse esconde-esconde

das reminiscências.

22 de junho de 2010

Sobre a não-despedida

Se for para longe
E aliviar meu espaço de visão
Por fim o fim se dará.
Mas a distância é boa com espaços,
não corações.
Vou sentir sua falta.
Uma falta imposta bem antes a mim mesma,
como sempre senti, mesmo perto de ti.
Porque você não estava.
Só a imagem inventada da sua pessoa
olhando pra mim.
Um retrato que permanece intacto e perfeito
E não trêmula com o vento.
Mas ainda sentirei sua falta.
Todo dia. Todo dia.
Pois na sua imperfeição despertou as melhores coisas em mim.
E as piores.
Para que eu fosse ainda maior do que eu era.
Hoje sou.
Vou sentir falta de nem sei mais o quê.
Todas as faltas do mundo
flamejam em mim:
não me aqueço.
Que as cinzas do tempo ultimem seu nobre trabalho.
Quantas saudades, quantas! (...) todas.

23 de maio de 2010

As nove filhas

Essa profunda falta de inspiração seria trágica,
se não fosse linda
e triste,
se não fosse leveza.
Pois poemas vêm e vão:
vento soprado na ponta dos dedos,
entidades de vida própria
que desmandam dentro-fora.
- Ai de mim, mero instrumento, discordar.
Nesses dias, deito a caneta sem pensar sobre,

pois nisso também recai toda a beleza.
As musas do Olimpo me devolvem, de tempos em tempos, uma vida mortal.

Então, eu vivo.

31 de março de 2010

Das lembranças

Sinto tantas saudades de nós
que a música no rádio estraga meu dia inteiro.

Sumi com todos os rastros,
mas eles abrem buracos no meio da terra
e riem de mim.

Sinto saudade de mim com você
quando eu era outra pessoa.
E todas as cartas de amor não eram ridículas.
E declarações em praça pública não pareciam falta de sanidade mental.

Acreditava na paz,
reciclava o lixo, lia sobre socialismo.
Tinha uma vaga no céu.


Acabou.

Foi pacto meu,
desses que a gente faz e não quebra,
mas sempre fica alguma saudade.
Memórias são instrumentos de tortura
quando rejeitadas.
Por isso eu aceito.
Aceito todas; e sigo em frente.

28 de março de 2010

Das imagens

O catador recolhe o papelão com cuidado.
Dobra, ajeita, se deita.
Os passantes não querem mais papelão.
Não enxergam catador.
Eles não querem catador.
Nem enxergam papelão.

Derrama-se em silêncio uma cumplicidade mútua.

Foi nos cantos inesperados, das marquises, dos becos sem saída,
que aprendi sobre segunda chance.

27 de março de 2010

Constatação

Tem sempre uma bagunça
fora
dentro
fora
para organizar.
Tem sempre uma mágoa
dentro
fora
dentro
para exorcizar.

13 de março de 2010

Venho brindar, amigos, minha libertação.
Era um passado que não passava, uma mania de reinventar em moldes arcaicos.
Ergo meus impérios diante de mim sem que para isso utilize tijolos arrogantes. Reino sob pulsos livres e ares carinhosos.
É sono inteiro, completo e merecido, com chuva no quintal:
- Brindemos, pois.

20 de fevereiro de 2010

Quem sabe essa mania de engolir sapos ainda não me rende uma fila de príncipes?

16 de fevereiro de 2010

Líquida

Quando os Deuses dividirem as funções novamente,
estarei na fila dos oceanos,

para refletir a lua, tal qual o imaginário dos amantes.
Quero ser azul, plácida e azul.
Sem fim, nem começo, só uma imensidão
entregue ao ritmo encantado do mundo.

Desejo ardentemente uma paz líquida

feito o útero que não volta mais.
Se tem uma coisa que a idade ensina é tirar carrapato das costas. Isso é uma metáfora. E essa é minha aposta de felicidade a curto prazo.

6 de fevereiro de 2010

São elas, as crianças, que beijam meus machucados pra sarar.
Não poderia ser ao contrário.
Elas acreditam na cura muito mais que eu.

18 de janeiro de 2010

Sobre a coragem.

Ninguém fala sobre o calvário da coragem.
Despindo-a da aura magnífica, glorificada em livros de aventura, em planos heroicos, na queda sem cordões, na luta diária dos injustiçados, ela também pode ser cinza.
Sem drogas, bebidas, dinheiro, ou remédios. Sem fugas paralelas, nem psicodelismo barato.
Tão difícil quanto provocações no deserto; tão menos recompensada quanto se espera: coragem é para gente grande, independente do tamanho.

Potencialidades

Acordar segundas-feiras nubladas.
Voar.

Pendurar com dedo mindinho.
Morrer sem parecer absurdamente triste.

Entristecer absurdamente sem morrer.
Porque metáforas são desculpas esfarrapadas do criador

para reconstruir em algodão.
Cuidado, território desconhecido (inclusive para mim).

17 de janeiro de 2010

Essas futilidades sempre emergem diante do caos.
Cortar cabelo e fazer as unhas são atitude desesperada
perante o fim de mim mesma;
Mas insisto.

Se for doer, mantenha distância.

Queria passar pelo mundo sem incomodar.
Com licença, passo leve, feito asa.
Sem culpa, ou crises banais.
Essas menoridades tão cansativas
sobre as quais todos querem falar.
Todos têm uma opinião,
do sociólogo ao dentista.
Todos querem discutir a relação,
menos eu.
Só preciso de um canto em silêncio,
um convívio regular,
visitas esporádicas ao meu coração.
Cuido de mim sozinha.
Faço orações, trabalho digno.
Pago as contas.
Minha alma tem portões
mais altos que a curiosidade alheia.
Não estou aberta a dissecações.
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