7 de novembro de 2019

A ceia

Sonhei contigo, 
Mas achei a realidade mais onírica 
Do que o devaneio realístico da minha mente. 
É minha nova habilidade para concretizar amor. 
Por isso, vem pra perto ainda hoje na ceia sagrada que te proponho: 
Serei pão e vinho materializados, 
Porque nem minha carne, nem meu sangue carecem alegorias. 
Só afeto
E tesão. 

 (Registro aqui a beleza corpórea do nosso enlace)

O brinde

Quero reencontrar minhas vulnerabilidades
como velhas conhecidas na mesa do bar: 
- Oi, vocês cresceram! 
- Pois é, estamos cada dia mais frágeis, olha aqui essas feridas, 
essa poesia irremediável, 
essa pressa de ser feliz.
Então pedirei:
- Uma dose, por favor, para o brinde dos sobreviventes!

23 de outubro de 2019

Arrumação

Cada sentimento em um pote colorido.
Estou organizando meu mundo interior. 
Carência sempre fica no frasco maior 
Sem nunca preencher o vidro. 
Quando a visita chegar, quero estar presente. 
Estou faminta por compartilhar a minha vida. 
Meu ofício: catalogar coisas que doem e brilham, 
Sabendo que as primeiras lotam mais prateleiras que as últimas. 
Sabendo que as últimas iluminam a casa toda! 
É quando tudo, inexplicavelmente, encontra seu lugar.
Escrever é codificar arquivos invisíveis.

17 de setembro de 2019

Sobre banners e fichas que caem de repente

Cena: loja de departamento. 
Eu com uma mochila gigante nas costas, saindo, duas pessoas entrando na tal loja, recuo rapidamente para esquerda, mais pra não ser atropelada, menos por gentileza. A bolsa bate no cavalete que cai estrondosamente com o banner da coleção primavera-verão. 
Silêncio. 
Agacho desajeitada e roxa de vergonha. Um mocinho uniformizado vem solícito. Entro em modo automático: 
- Moço, desculpa, eu sou um DESASTRE. 
Ele se agacha pra ajudar: - Imagina, moça! 
Mas penso, numa fração de segundo e conserto: 
- Não. Não sou um desastre. Tô tentando fazer o melhor que eu posso. 
Silêncio. 
Ele sorri estranho, me achando louca da cabeça e possivelmente uma pessoa violenta. Saí saltitante com minha resposta. Levou tempo para conseguir dizê-la. 
Autoestima também se constrói em lojas de departamento. 

4 de setembro de 2019

Insistência

Daí seu dia foi ruim. 
Seu crush está namorando. 
Você perdeu o ônibus. 
Seu corpo dói de tanta canseira. 
O dinheiro sempre acaba antes do sonho. 
Mas teve uma pomba no caminho. 
No fim da tarde bateu um vento no rosto. 
Sua aluna aprendeu aquela tarefa que você passou há uma semana. 
Tentarei mais uma vez amanhã. 
Estou nessa de não desistir há trinta e três anos. 
Conheci uma senhora de oitenta. 
Ela brinca disso há mais tempo que eu. 
Ela viu mais pombas, ventos e crianças do que eu. 
Acho bonito quem possui essas riquezas no corpo. 
Desejo para minha velhinha futura muita insistência nessa vida.

11 de agosto de 2019

Auto-autoajuda

Ando criando mais dias bons que ruins, 
Mas os bons não são tão bons 
E os ruins são de matar. 
Esse registro é para a mulher do futuro saber: 
A expectativa azeda o sabor da comida, 
É preciso fome para temperar a existência. 
Estou escrevendo minha auto-autoajuda. 
Nem deveria! 
Mulher já nasce sabendo voar.

12 de junho de 2019

Pra gente se desprender

É, não deu. 
Estou quebrada. 
Tem uma música em looping no meu radinho de pilha. 
Estou torcendo pra acabar, a pilha, a música, 
Porque minha cabeça anda sem freios no imaginário. 
Ontem fui tão longe que nem sabia voltar. 
Na verdade, se eu pudesse, queria dizer que 
Meu breve livro de aventuras foi atualizado com sucesso. 
Você transformou coisas. 
Quando o mundo apagar, ninguém lembrará mais. 
Então, escrevam no livro do universo: ele chegou e inventou dias bonitos. 
Isso importa? 
Isso importa (pra mim). 
Obrigada.

27 de abril de 2019

Sobre a impossibilidade de controle ou o desejo por leveza

Das piores manias minhas 
É querer a perfeição de tudo. 
Das pessoas. 
De mim. 
No fim da história, nem eu 
Nem ninguém consegue, 
Bate a bad, 
Estou sempre só. 
Uma velha imperfeita, solitária, 
Cheia de gatos, 
Será sempre uma opção para o futuro.

6 de abril de 2019

Sobre (sob) lençóis.

Tá bom. 
Sou louca mesmo, admito. 
Penso coisas improváveis nas horas mais inadequadas. 
Daí vou desenhando um rascunho até seu coração. 
Tenho pontes de lugar algum, 
Ruas sem endereço. 
Palavras deságuam da boca sem filtro 
- Meu deus, o que disse? 
Foi maluco, eu sei. 
Mas tão amoroso é meu amor. 
Você não tem a dimensão 
Do tanto que posso acolher nós dois. 
Roubo seu lençol de noite 
Para tê-lo por perto, tentando pegá-lo de volta. 
No meu mundo perfeito existem dois lençóis diferentes e gigantescos para cada um, 
mas na nossa realidade a gente divide. 
Eu gosto de estar no mundo contigo 
Por mais que seja difícil às vezes. 
Por mais que dividir não seja meu forte. 
E tem dias que você me ensina 
E tem dias que eu te ensino. 
No meu universo fantástico, boto a toalha para tomar chá, 
Então você chega com seu café preto sem açúcar, 
Trazendo mil saídas para os problemas da vida. 
Você é meu Gato de Cheshire, 
Eu, sua Alice. 
E essa é nossa metáfora (brega) de amor. 
Mas não importa: eu te amo.

10 de março de 2019

Para o maior coração encontrado na face desta Terra

Querido cúmplice: 
Queria que soubesse dos jardins destruídos, 
Dos animais machucados em batalha, 
Das tempestades. 
Leva tempo para arrumar a casa 
Novamente 
Mas estou disposta. 
A disposição é meu melhor presente. 
Gostaria que ficasse por tempo indeterminado.

7 de março de 2019

Sobre ter um estalo às 5 da manhã

Meu sangue volta para a terra. 
Meu aprendizado volta para meus alunos. 
A vida é um eterno devolver-se. 
Assim como o monociclo tem como regra principal o movimento, 
A existência tem a gratidão.

21 de fevereiro de 2019

Meio-dia

A Esfinge das aulas de leitura atravessou meus pensamentos. 
É interessante como o fora reflete o interno milimetricamente. 
São enigmas, à porta de Tebas, meio-dia. 
É meu medo da travessia. 
Mulher, águia, leão, serpente, compõem meu coração. 
A resposta também sou eu.

20 de dezembro de 2018



O verão está aqui. Ciclicamente ele sempre retorna, mas dessa vez estou melhor. Observo meus seios fartos com espanto, como se quisesse conhecê-los. Olho minhas coxas dando voltas por aí, saltitantes. Os cabelos, mais curtos, tão leves, inteiramente únicos. Sempre desprezei essa estação, porque nunca estava boa o suficiente para ela. É construção antiga, um pouco mais de trinta anos. O verão está em minhas pernas e braços. Eles dançam, deliram e correm. Eles nadam. Tomam sol. Jogam bola. Meu corpo é sagrado. O verão sou eu.
Querido, declare-se. 
Só amor pode salvar essa gente.

16 de dezembro de 2018

Universo (mágico) paralelo



Nos preparamos com antecedência: 
Roupa, pão, transporte, economias, flores, paz. 
Tecemos amores, rezas, 
Construímos a tela mental primorosamente. 
A roupa rasgou, tamanho o corpo que não cabia em si, 
A hora apertou contra a parede, tantos imprevistos! 
Mas triunfamos. 
Lembro do salão em festa, 
Enfeitado de amigos. 
Do calor, 
Abrindo espaço em cada abraço. 
A energia caiu pra mostrar que cantamos à capela, se for o caso! 
Cada festival é assim, único. 
Mãos dadas nas mãos dadas até formar um círculo e abraçar a Terra. 
Ficou a lembrança. 
O resto, é dança.

14 de dezembro de 2018

Elo

Depois de provar o etéreo,
Tudo quer conversar comigo. 
Forças me pegam pelo braço e sinalizam 
Em poemas, ou canções, 
Em sonhos, ou pessoas. 
O mistério me abraça. 
Eu, comovida, abraço de volta.

13 de dezembro de 2018

Bem-me-quero

Foi no álbum de figurinhas 
Onde aprendi poesia. 
Não com os versos, simples, rimados, 
Mas com as vidas contidas em cada cena. 
Deixei as mulheres falarem, 
Era minha voz. 
Foi assim.

11 de dezembro de 2018

Sobre Nando e Cássia

Não uso all star azul 
Nem preto de cano alto 
Meus amigos foram partindo de mim 
E eu deles 
Porque vivo num vazio inconsolável. 
Meu coração é cercado por crocodilos selvagens.

2 de dezembro de 2018

Crítica sobre método avaliativo ou tratado sobre liberdade.

Ambiente gelado.
Janelas pintadas de maneira que não se veja o exterior.
Carteiras enfileiradas.
Paredes lisas, cores sóbrias.
Pessoas com rostos comuns.
Uma garota pede: Alguém tem caneta preta?
Silêncio.
Ninguém preparado para ruído.
A fiscal pega meu dedo e passa numa tinta escura, fico observando minha impressão digital no papel. 
Meu dedo e o dela, um instante apenas,
O único contato humano até o momento.
Cinquenta questões objetivas, múltipla escolha.
Escuto distante um pássaro do lado de fora. 
Esqueço da pergunta que acabara de ler.
Silêncio.
Nem tudo está perdido, tem uma crônica do Moacyr Scliar e uma tirinha genial do André Dahmer. 
Humor ácido em ambas.
Há quanto tempo estou aqui?
Envelheço.
Passo por matemática, com alguns ferimentos,
Derrapo nos pensadores, tantas teorias sobre a educação que nunca usei, eu penso.
Ainda tem a redação.
Rascunho muitas coisas, apago.
Tese, antítese, será que meu texto ficou esquerdopata demais?
Apago.
Melhor aparentar neutralidade, concluo.
Não consigo.
Foda-se.
Passo a limpo.
Foram três longas horas.
Será que está claro ainda?
O corpo dói.
Tem as questões de chutar. Ô saco, deveria ter chutado antes.
Vontade de urinar. 
Tem muita gente na fila.
Já está quase na hora, o som exterior distrai minha cabeça.
Entrego a prova com urgência, preciso sair. Rápido.
Você prestou para quê?
Para trabalhar com crianças, acredita?
Sigo dois, três, dez quarteirões sem rumo. 
Finalmente livre.

Convite

Cara colega, 
Essa carta é para lhe dizer sobre ele. 
Como em tão pouco tempo 
Foi certeiro o golpe na autoestima 
Devido a uma canalhice sem precedentes. 
Aprendi como é ser tratada como objeto apenas 
Num relacionamento doente. 
Escrevi tratados sobre inveja, ciúmes, violência 
Para ninguém passar por isso 
Nunca mais. 
Então vi que a nova vítima é você 
E gostaria de alertá-la. 
Também não sei se me ouviria 
Porque fomos condicionadas a ser inimigas. 
- Inimigos não dividem informações privilegiadas. 
Gostaria que fosse diferente dessa vez 
O mal perdendo forças, 
A gente ganhando liberdade. 
Estou aqui se precisar 
Vamos conversar?