14 de março de 2015

das canções oníricas:

aí vc sonha com uma música e acorda desesperada procurando o gravador... mas te foi permitido guardar apenas o refrão.

7 de setembro de 2014

Ciranda


Eu preciso, de tempos em tempos, pegar na mão das pessoas. 
Pode chamar de carência, que seja! 
Estar junto é algo que me remete a pureza das rodas infantis. 

 - A infância sempre será um lugar pra se voltar a dois.

6 de setembro de 2014


Líquida

Não existe beleza na minha escrita. 
Venho de um passado tímido 
Com contornos acabrunhados. 
“A letra que quase some em si mesma.” 
O mundo gravou muitos ruídos no meu corpo 
E eu engoli. 
Mas aí, numa madrugada qualquer de setembro, 
Eles resolveram sair em jorros 
Pra molhar os lençóis brancos, bonitos, brilhantes 
Da minha cama. 

Molhar os lençóis aos vinte e oito anos com um jorro bestial podia ser motivo de vergonha. 
Mas eu sinto que desfazer-me líquida é uma questão de recomeço: 
- A letra que quase some em si mesma - não cabe mais no espaço burocrático de duas linhas.

Só zinha.

A madrugada é silêncio. 
É dela minhas melhores ideias 
E toda minha solidão. 
Ela ridiculariza minha vida 
Em cabides de exposição 
(o rei está nu!). 
Faz da rima 
Um esconderijo 
De versos livres 
Que essa hora, 
acordariam tudo. 
Estragariam tudo. 

O silêncio é lei. 
Então eu rimo baixinho.

Eu sou escuridão. 
A escuridão é madrugada. 
A madrugada sou eu. 
E onde está você 
- pra segurar a minha mão?

23 de agosto de 2014

Fêmea

Aí você quer escrever 
(Ou precisa) 
Porque fica assustada com tanta coisa explodindo no seu útero 
Você não entende suas recaídas amorosas 
As paixões platônicas por pessoas impossíveis 
Das carências excessivas 
Atrás da sua aparente independência feminina 
Engole suas fragilidades 
Porque odeia despedidas. 
Você não entende mais nada. 
É um labirinto sujo de palavras 
Que ninguém percorre.
Por que oferece paredes? 

O que sobra é o vazio inútil entre os corredores do mito 
Sob um sol que não se perde 
Sobre você que está perdida.

19 de maio de 2014

Hoje eu voltei do meu trabalho de ônibus às 17:26. Essa frase possui pelo menos dois privilégios: o primeiro é que eu tenho um lugar nesse mundão inteiro para onde voltar. O segundo é o pôr do sol das 17:26 (com visão panorâmica da janela): deslumbrante.

13 de maio de 2014

Muitos pensamentos perturbam minha paz, escrever é uma maneira de gritar; como o afogado buscando ar e o doente a cura eu busco sobreviver mais um dia em cada linha que transborda em mim, porque preciso devolver, constantemente, meu rio para sua missão de oceano.

8 de maio de 2014

Quando acho que cheguei ao fim, alguém me abre novos começos. Esse eterno aprendizado eu chamo de Deus.

30 de dezembro de 2013

Tenho um medo terrível desses ‘senãos’ que chovem nos meus feriados 
Aliado a uma vontade imensa de cair pra dentro do seu mundo. 

- Se o homem de lata vislumbrasse o problemão que é, pediria outra coisa!

29 de dezembro de 2013

Fugitivos

Meu Amor, te matar está sendo difícil! 
Você não fica quieto! 
Fica por aí inventando as pessoas 
E isso está matando nós dois. 
Pensa que não enxergam seus olhos esperançosos diante da podridão?
Há muito fomos descobertos... 
Por isso, logo estarão aqui, com foices, machados e tochas 
Para subjugar o que restou. 
Preciso matar você 
Porque não existe tempo. 
Não se desespere, 
ainda posso defender algumas sementes.
Então, para de arder escandalosamente essa pureza toda
Que a vizinhança já acordou.

18 de dezembro de 2013

Sobre o medo de aniversários

Sobre ter 27 e não saber ter 28 
É um abismo entre duas estações  
É quando você se acostuma a ser número ímpar 
Na vida. 
Uma idade que contém o infinito é muito para caber na sua pequenez. 
Esse eterno afrouxar dos moldes 
É para gente pequena 
- que sonha em ser eterna.

3 de dezembro de 2013

Constatações poéticas

A poeira sobre os móveis do meu quarto dava para fazer outro planeta.

23 de novembro de 2013

Poema de uma nota

Para Lenine


Esse poema é pra dizer
O que as palavras vão calar diante da sua poesia,
Porque não nasci passarinho
Digna de te acompanhar numa sinfonia a peito aberto.
Mas nasci pra escrever toda falta de jeito,
Inclusive a minha contigo,
E pra confessar nessas linhas cósmicas ou tinta e papel, apenas,
Que tenho um par de particulares com suas partituras.
Que foi inevitável amar debaixo da claridade das suas canções
Pois você cria mundos e eu os habito,
Trazendo em mim
Mais você do que você mesmo imagina!
Essa composição de uma nota só
Canta como eu te sigo
encantada feito criança atrás do circo.
Porque é inevitável não te querer bem perto:
Você é gole d’água no deserto.

8 de novembro de 2013

Hoje, lendo o Pequeno Príncipe com meus alunos, eles descobriram o peso da palavra "efêmera". A rosa é efêmera, todos que amamos também são. As montanhas ficam, os rios deságuam no mar, as pedras permanecem por mil anos, mas os vivos sobrevoam a existência (tão rápido!).

22 de outubro de 2013

Essa história de enfrentar limites está me levando um tanto além do meu quintal.

5 de outubro de 2013

Para o espelho

Mas você nunca viu realmente nada.
Nunca viu uma árvore de ponta cabeça
Com um pássaro invertendo o céu!
Nunca abraçou encostando os umbigos,
Nem sabe o que é olhar nos olhos de alguém por mais de um segundo inteiro!
Você fica espantada ao descobrir um tanto de coisas te olhando, pedintes:
- Abra-nos!

Vai fugir?
Se esconder?
As coisas não calam, minha cara.
E inverter o mundo não é opção,

É necessidade.
Encontrar o outro é encontrar a si mesmo: sem escapatória.

15 de setembro de 2013

Vertentes

Uma amiga me disse que ando curvada.
Fisioterapeutas, vendedores de cintas para endireitar os ossos,
professores de pilates se ofereceram.
Não! Estou me reerguendo de dentro para fora – eu disse.
São muitos fantasmas que carreguei durante a vida.
Sou táxi dos meus medos
Por isso meus ombros se afundaram como rio nos períodos de seca.
E o mais bonito é que a água para completar esses vazios
brota de uma bica dentro de mim.

Um dia enfeitarei essa mesma amiga
com as flores das encostas verdejantes do meu rio,
porque eu floresço primaveras  tardias
no coração das pessoas.

Porque a grande vantagem de ser lenta é que ainda terei flores no inverno.

19 de agosto de 2013

Sobre ser humana

Deus não me fez para ser apenas piedosa. 
Ele queria mais de mim, 
Queria que eu fosse até lá pegar na mão 
De todos os caídos pelas estradas todas 
Desse mundo. 
Mas, no meio tempo Céu/ Terra, 
Fui desviando os caminhos e perdi, na primeira curva, toda minha piedade. 

Deus não me fez para amar. 
Me fez para sorver a outra pessoa por inteiro 
E entregar do peito o néctar mais profundo que um ser humano pudesse tocar, sem tocar. 
Porém, na longa descida, ventos fortes arranharam as memórias divinais, 
Junto com meu coração. 

Pedras, paus, animais mortos já tentaram ocupar esse lugar outrora cheio de Paz. 
Às vezes, quando olho minhas crianças eu me completo, são apenas alguns segundos 
Quando experimento a missão e penso: - Estou chegando lá. 
Às vezes, sem piedade, amor, sem rumo também, fico pairando no vazio que já foi repleto. 
É um esconde-esconde de sabedoria, poucas vezes genial; quantas vezes imbecil.