12 de fevereiro de 2013

Sementeiras

Escrevo para não morrer.
Existem mortes de acidente, mau funcionamento do corpo,
Mortes súbitas.
A morte de quem precisa e não escreve, é lenta.
Quem não abre espaços na folha semeia vazio,
Mas as palavras são pequenos pedaços de vida na imensidão da Terra.

Escrevo para viver.
Porque sobrevivi ao apocalipse
Pisando o chão da minha cabeça.
Porque vejo sementes na podridão dos lamaçais,
Vejo, no solo, minerais necessários ao florescimento.
Tenho comigo a crença na ressurreição dos mortos,
Porque já renasci do avesso da tragédia.
Escrevo porque a única coisa que resta a um errante
É o grito.
Então eu grito, mesmo que seja no escuro de uma sala escura
Dentro de mim.
Mesmo que essa luz seja para ninguém,
Sou encarregada de acender o lampião,
E cultivar as esperanças.

2 comentários:

Thami disse...

Que lindo, Pri!
Me fez lembrar um outro, da Christiana Nóvoa, que eu vi no "Teoria Geral do Esquecimento" do Agualusa, assim:

Exorcismo

lavro versos
curtos
como orações

palavras são legiões
de demónios
expulsos

corto advérbios
pronomes

poupo os pulsos.

beijo!

Priscila Machado. disse...

Obrigada flor, sua presença engrandece minhas palavras.

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