18 de janeiro de 2010

Sobre a coragem.

Ninguém fala sobre o calvário da coragem.
Despindo-a da aura magnífica, glorificada em livros de aventura, em planos heroicos, na queda sem cordões, na luta diária dos injustiçados, ela também pode ser cinza.
Sem drogas, bebidas, dinheiro, ou remédios. Sem fugas paralelas, nem psicodelismo barato.
Tão difícil quanto provocações no deserto; tão menos recompensada quanto se espera: coragem é para gente grande, independente do tamanho.

Potencialidades

Acordar segundas-feiras nubladas.
Voar.

Pendurar com dedo mindinho.
Morrer sem parecer absurdamente triste.

Entristecer absurdamente sem morrer.
Porque metáforas são desculpas esfarrapadas do criador

para reconstruir em algodão.
Cuidado, território desconhecido (inclusive para mim).

17 de janeiro de 2010

Essas futilidades sempre emergem diante do caos.
Cortar cabelo e fazer as unhas são atitude desesperada
perante o fim de mim mesma;
Mas insisto.

Se for doer, mantenha distância.

Queria passar pelo mundo sem incomodar.
Com licença, passo leve, feito asa.
Sem culpa, ou crises banais.
Essas menoridades tão cansativas
sobre as quais todos querem falar.
Todos têm uma opinião,
do sociólogo ao dentista.
Todos querem discutir a relação,
menos eu.
Só preciso de um canto em silêncio,
um convívio regular,
visitas esporádicas ao meu coração.
Cuido de mim sozinha.
Faço orações, trabalho digno.
Pago as contas.
Minha alma tem portões
mais altos que a curiosidade alheia.
Não estou aberta a dissecações.

20 de dezembro de 2009

A máquina.

Todo Natal meu é particularmente triste.
É uma vontade de ficar dentro do quarto até amanhecer ano diferente,
como se números pudessem mudar a sequência lógica dos meus atos.
Todo final de ano peço por todos que não estão mais comigo.
Fico pensando que nesse dia, feito um portal do tempo,
poderei voltar às épocas que quiser.
O relógio dá essa assinatura aos dias,
pois todos, até os piores, ficam com uma beleza nostálgica.
Todas as pessoas, até as piores, ficam com uma importância inexplicável.
E todos meus pensamentos, até os piores, concordam que saudade de vida e de morte é um dos sentimentos mais doídos que já inventaram.

21 de novembro de 2009

Há que se admirar homens de terno que afrouxam a gravata e sentam no meio-fio para rezar.

7 de novembro de 2009

Menina Lilás

Morava num livro,
cercada de letras por todos os poros.
Não era suficiente.
Escreveu janela,
das folhas fez pássaros.
Choveu.
Dicionário em mãos, roubou guarda-chuva.
Apagou.
Escreveu ponta da língua pra fora.
Assim é bem mais, pensou.
Bebeu da água.
Comeu do pão.
Adormeceu sem planejar minuciosamente o passo seguinte,
pois liberdade é mil precipícios na barriga
e ela não tem medo.
Só de espíritos ou certas marcas de inseto.
E de pessoas excessivamente felizes.
Quando chora fica com o coração desmaiado por longos dias,
mas como é adorável!
Como é adorável essa menina
de nome sem rima
que não coube em nenhuma canção.
Esse poema é pra celebrar sua esquisitice.
É também um brigadeiro de amor
(seja lá o que isso for).
Esse ano descobri sofrimentos e felicidades em todos os graus.
Modifique-me de tantas maneiras que cresci, diminuí e comi diversos bolos fantásticos de terras maravilhosas. Não é síndrome de Alice, é a vida em seu sentido mais arrebatador.
Pra variar, teve uma paixão doída, uma briga e uma reconciliação, cabeçada na parede, um beijo, tudo regado com as melhores trilhas de cinema.
Lembrei e fui lembrada por quem mais queria. É isso que importa nos meus finais. Aqueles que eu amo estavam aqui, para o que desse e viesse; e veio de tudo, com tudo, pra tudo ficar melhor.
Ganhei crianças ao meu redor, brinquei, troquei cartas, dancei. Fiz um filme! Tirei o siso, peguei piolho, caí de moto, mas tá valendo.

É fantástica magia que o tempo dá para as coisas.
Tudo que não sarava nunca, sarou.
Por isso, dispenso o final feliz; prefiro começos e meios inventados todo dia, com amor.

E “sem amor eu nada seria”, só para constar.


Um beijo.
Obrigada a todos que fizeram parte disso.

30 de outubro de 2009

Quando termino uma semana assim, feito essa, pressinto que estou exatamente onde deveria estar.

25 de outubro de 2009

acho que nem era pra ser mesmo não.

mas é que eu queria
eu quero
e vou querer amanhã cedo (se estiver viva).


certeza isso.
certeza!

21 de outubro de 2009

A lista

Ah!
Como ia ser bonito a gente...
Eu aprendia cozinhar,
tirava a bicicleta do quartinho.
Como ia ser bom.
Perdia essa cisma de animais domésticos, por você.
Minha grosseria.
Uma ou outra mania, talvez.
Era uma lista de promessas debaixo do meu travesseiro.
Umas cinquenta páginas, com letra miúda!

É que o amor desperta essas vontades absurdas
na gente.
E a gente quebra a cara,

mas sempre refaz a lista.

17 de outubro de 2009

A beleza do ofício

Trabalho para aprender,
porque as crianças vão comigo.
Elas perdoam minha visão turva sobre a vida,
e tem paciência com meus defeitos.

Tenho o melhor emprego do mundo,
mas nunca contei a ninguém:
ganho para ver humanos crescerem,
assim, bem perto.
Esse é o milagre mais bonito dessa Terra.

Carrego minha voz e meu colo.
Eles são suficientes.
Por isso, sou habituada a tantos mimos infantis
e tornei-me carinhosa até com as pedras.

Nunca fui nada.
Nunca tive nada.
Hoje sou jardim inteiro,
pois elas plantam o melhor em mim,
dividindo, pacientemente, o mistério das coisas.

13 de outubro de 2009

Blog: curtos espaços de tempo
feitos para gritar.
Meu amor continua bobo e infantil,
mas não é vergonha não.
Meu amor é a melhor coisa que eu sei fazer.

Talvez a única.

12 de outubro de 2009

Nada não.

Ela era minha menina, só minha.
Não é mais não.
Eu queria ela bem perto,
ela fugia.
Meus carinhos sem medida
machucavam até a mim.
Eu fazia tudo sonho,
ela vinha e desfazia.
Coitadinha da menina,
não sabia, não sabia.
Desenhava ela no ar,
arrumava o vestidinho.
Ela sofria.
Eu criei o céu perfeito,
porém não foi direito obrigá-la a morar lá.
Quando olhei, estava só.
Só podia ser assim.
Não morreu, não brigamos, nada não.

E era melhor se fosse tudo.

8 de outubro de 2009

Toda tarde toda

Quando me perguntam como estou
já não abro despudoramente as janelas.
Explicar minhas voltas é em vão.
Devido à insistência, eu peco.
Invento romances, proposta de casório e a esperança de muitos muitos filhos,
(ou prometo perder vida em trabalho aborrecido).

Tenho curva,
perdoem as linhas retas.

Existem poucos mortais interessantes
para dialogar nas tardes vazias.
E também nas tardes cheias.

27 de setembro de 2009

Mil perdões

O fato é que somam-se cansaço, resfriado e solidão.
Não há o que escrever quando interior e exterior se partem.
Podia recorrer às mazelas sentimentais,
reclamando o amor que não vem,
o preço do leite
- vocês viram o preço do leite?
mas teria de parar para assoar o nariz nas toalhas brancas do bom senso.
Estou cansada de um cansaço
que não tem começo e nem fim.
Peço que orem aos seus Deuses do Olimpo,
porque 'fim do mundo' é o exílio dos poetas.

26 de setembro de 2009

Por ser tão excesso, preciso cortar... Mas prefiro assim: me transbordo para festejar o mistério.

4 de setembro de 2009

Para dizer, mas não disse.

Queria que ela soubesse
que cruzo em pensamento a distância toda,
todo dia,
porque gosto muito dela.

Veio descalça,
enraizou e nasceu flor bonita.
Teve desejos de estrada,
desde então não brotou mais nada.

É estranho, confuso e avesso,
mas arrisco,
porque são dela
as tardes na calçada vendo o sol desmaiar.

Inevitável foi olhar bem perto.
Minha paixão de criança
pelo inseto.