27 de setembro de 2009

Mil perdões

O fato é que somam-se cansaço, resfriado e solidão.
Não há o que escrever quando interior e exterior se partem.
Podia recorrer às mazelas sentimentais,
reclamando o amor que não vem,
o preço do leite
- vocês viram o preço do leite?
mas teria de parar para assoar o nariz nas toalhas brancas do bom senso.
Estou cansada de um cansaço
que não tem começo e nem fim.
Peço que orem aos seus Deuses do Olimpo,
porque 'fim do mundo' é o exílio dos poetas.

26 de setembro de 2009

Por ser tão excesso, preciso cortar... Mas prefiro assim: me transbordo para festejar o mistério.

4 de setembro de 2009

Para dizer, mas não disse.

Queria que ela soubesse
que cruzo em pensamento a distância toda,
todo dia,
porque gosto muito dela.

Veio descalça,
enraizou e nasceu flor bonita.
Teve desejos de estrada,
desde então não brotou mais nada.

É estranho, confuso e avesso,
mas arrisco,
porque são dela
as tardes na calçada vendo o sol desmaiar.

Inevitável foi olhar bem perto.
Minha paixão de criança
pelo inseto.

18 de agosto de 2009

Miséria dos tempos ou a morte da poesia.

E se de repente for assim:
imaginação não move uma agulha de onde
a razão colocar essa maldita agulha.

céu for apenas céu
lua cuspir São Jorge
poeira tornar-se pó


Sem drama, sem dor,
nenhuma poesia.

E se de repente for assim?

paraíso queimar em sol

astro virar satélite
poeira cobrindo tudo
sem comiseração.

E se de repente foi em vão?


suspiro apagar a luz
cinzenta rasgando chão
poeira assentar e fim.


E se de repente for, pra mim?
Conviver é ver filme que não quer.
Ouvir quando quer falar.
Aturar apontamentos
nas coisas mais sagradas.



Conviver com gente chata, é claro.

O individualismo é a coisa mais coletiva dos nossos tempos.
- Quanto mais me encontro, mais me encontro sozinha.
Meus vinte e poucos,
tão cansados, tão cansados.

Eu quero andar descalça,

despenteada, cantando o que não existe.

6 de agosto de 2009

Senhora, nobre senhora.

Sou muito mulher do meu tempo.
Carrego o mistério da vida
e das guerreiras que me antecederam o poder de ter ou não essa vida.
Não preciso casar pra ser gente,
nem amarrar meus pés a corrente alguma que não seja do meu agrado.
Prefiro aprisionar-me aos livros,
subjugar-me aos meus.
Se costuro é para trançar destinos.
Se cozinho, feitiços num solitário ritual.
Nada pode me prender
que não amor.

Sem feminismo,
necessito libertar desejos,
pois arte está no que penso ou sinto com espaço;
e respeito é território duramente conquistado.

Ser anjo;
ser puta;
estar várias é milagre feminino.

De cabeça erguida, grito alto:
"sou quem quiser,
não o que querem,
por conceber das minhas entranhas
o próprio poder da escolha.
Humana, falível, imperfeita e deliciosamente dona de mim."

Sou nobre senhora do meu tempo.

4 de agosto de 2009

Quando não se tem mais nada a dizer
é realmente algo preocupante.

26 de julho de 2009

imagem por: Arlene Graston

Adoro mar, mas não sei nadar até hoje.
Quando pequena, meu pai me jogou na piscina por desejar meus genes idênticos aos dele - ótimo nadador desde sempre - não são.
Hoje, águas fascinam e dão tontura, numa espécie de atração com repulsa, assim como sinto coisas desconhecidas.
Pessoas também atraem e dão enjoo.
Preciso estar "dois"
- com quem veja desenhos nas nuvens.

Matemática das coisas tristes.

Deixei recado no portão:
“Você anda ocupado demais
para pequenas delicadezas.”
Preciso derrubar sorvete na sua camisa e rir.
Saber histórias secretas
do mundo (que só existe) depois de você.
Impossível dividir monólogo
sem valsa.

Dois pra lá, dois pra cá...
- Dois.

21 de julho de 2009

Além do céu.

Esse campo tem horizontes maiores,
não menos distantes,
mais bonitos talvez.
Sou canções para chegar lá.
Vou escorregando de mãos dadas com o sonho
de ser grande.
Passageira, do ventre aos pés,
mistério solitário
sob nuvens do universo.
Não quero menos que o mundo,
porque sou mundo também.
Por querer tudo, tudo sou eu.
Ciranda nos braços da roda
do amor.
Entre fardo e luz, criatura perdida,
que salta abismos para voltar


e volta.

Devagar, posso tocar as coisas
e ser tocada,
silenciosamente.

9 de julho de 2009

Cartão vermelho.

Ouço pai e irmão
discutirem jogos pelos cantos,
sem argumento para acrescentar.
Vivencio a religião futebol
com o silêncio de um ateu.

Passos frêmitos sobre roseiral.

Admiro os poetas que levam anos
para escrever seus versos.
Os meus são cuspidos às pressas,
porque tenho medo da morte
e fome de tempo.

Depois, ao reler,
aparo arestas
com firmeza de um ladrão de rosas
sob luz do lampião.

Se morrer,
perfeição será mero detalhe.

O importante é que senti e disse.
Minha poesia é a junção desses segundos.

Não se engane:
a vida é estrada que se percorre sozinho.

Família, amigos, namorado, patrão.

A vida é estranha que se percorre sozinho.

Tente fechar os olhos e escapar
do terrível julgamento da mente.

Estrada que nos percorre sozinha: a vida.

E por nos atravessar, somos fortes.
E por atravessá-la, memória.

8 de julho de 2009

Ensaio sobre a fatalidade e a escolha.

Vender versos nas portas
é tão digno quanto oferecer tapetes e lustrar panelas.
Alguma pessoas, avaliando o serviço,
ou por comiseração, podem comprar seus livretos.
Você conquistará leitores adormecidos,
despertará escritores.
Um, ou outro amigo importante. Por que não?
Poetas são ácidos, mas ótima companhia para o chá.
Com o tempo, o escritor caberá nos anseios dos leitores mais fiéis.
Sugerirão temas, você ouvirá com atenção demasiada.
Poemas sobre obviedades cotidianas.
Leves e confortáveis como uma tarde na calçada.
Sim, sim! Uma biografia digna.

"Senhor fulano de tal, profissão: poeta.
Sobreviveu de poesia."

- Milagre! - dirão os incrédulos.
- Poeta? - dirão os poetas.
- A que preço? - questionará você mesmo. (ou não)


Conservarei minha poesia virginal perante a prostituição do mundo. (ou não?)

Azáfama

Minhas escolhas
são riscos demais pra colher.

Do meu tempo,
faço versos,
porque não sei ser outra forma
que não essa.

Se todos desistiram de compreender,
não sou clara
como gostaria.

Os poucos que restaram,
ou aceitaram,
ou são tão confusos como eu.

Não quero andar em círculos.

Tenho fé, honestidade e caráter
como herança.

Sem medo,
ou planos grandiosos:
eu vou.

Gostaria que muitos fossem comigo,
mas meu tempo tem mais pressa;
e não estou disposta a esperar.