27 de junho de 2016

Sobre a caixa (que não é de Pandora)

Tinha uma penca de monstros debaixo do meu coração.
Todas as noites olhava cada um deles, numa inspeção rotineira.
Mas você desamarrou tudo!
Agora não sei como fazer
Pra por as coisas no lugar de novo.

Eu tô parecendo carente, sensível e derretida.
Não era pra ser assim.
Tinha monstros que me ajudam na defesa do território.
E prometi deixá-los lá
Numa convivência pacífica
Numa convivência calculada
Até você me invadir
Sem deixar nada.



25 de junho de 2016

Minha voz é minha bandeira. 
Às vezes ela gasta, cala, trava, revolta 
E se esconde de volta no corpo. 
Daí eu escrevo.

14 de junho de 2016

- Esses poemas todos, horas de áudio, cartas... Ponho no fundo da gaveta? 
- Sim. E joga a chave fora, não confio na gente.

13 de junho de 2016

- Godo, ela está voltando. 
- Quem? 
- A tristeza. Como posso fazer pra ela não ficar? 
- Essa é fácil: ajude as pessoas. 
- Mas eu já ajudo o bastante, sou professora, já faço o suficiente. 
 - Por isso está voltando... sempre podemos fazer mais. 
- Preciso de exemplos práticos. 
- Certo. Tá vendo aquela senhora no ônibus que sempre puxa assunto? 
- Não brinca, isso não. 
 - Ela foi abandonada pelos filhos e netos. Trabalha como cozinheira e adora ensinar receitas. 
- Vai me alugar a viagem inteira! 
- Esse é o plano. 

- E aí? Foi lá? 
 - Na verdade só ouvi, falou durante 20 minutos. 
- Pois é, durante 20 minutos você não ficou triste. 
- Mas se eu ajudar todo mundo, quem poderá me ajudar? 
- Eu! (que na verdade sou você porque moro na sua cabeça). 
- Você acha que funciona? 
- Sim, te arrumo uma fila pra ajudar em dois minutos. 

- Godo, morro de medo da tristeza voltar. 
- "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas." 
- Arte da guerra! 
- Por isso que é bom sermos a mesma pessoa. 
-Porque lemos os mesmos livros? 
-Sim! Isso evita explicações desnecessárias.
-Ligar no meio da madrugada vai parecer desespero?
-Você é patética.
- Eu sei.
- Você vai ligar?
- Vou, em pensamento. Porque daí posso criar o diálogo todo.
- Atitude controladora.
- Você deveria me apoiar!
- Alguém tem que botar um pouco de realidade nesse seu país.
-País?
-Das maravilhas.
- Cala boca se não desinvento você.

11 de junho de 2016

Sobre o ofício

Você é professora. Corrige provas, fala dos alunos, planeja a festa da escola. Tem que explicar isso muitas vezes. Muitas vezes não é compreendida por não frequentar baladas, não dormir tarde, guardar recicláveis para usar nas aulas.
Você estuda sobre translação. Procura livros pré -adolescentes que instiguem sua inteligência - se eu gostar eles também vão - cria as vozes dos personagens. Ama papelarias, escreve cartas (recebe cartas - muitas!).
Sabe interpretar crianças: cara de banheiro, dor, medo ou vontade de passear no pátio?
Quer desistir -passa dias planejando o fim. Quer insistir -passa dias planejando recomeços.
Sabe o nome de cada aluno que alfabetizou. Lembra da professora do primeiro ano - que te alfabetizou.
Tem cinco piadas, três mágicas, duas dobraduras e dezenas de brincadeiras na manga.
Quer vida normal, mas sabe que nunca terá. Sua recompensa flutua silenciosamente sob os olhos mortais: "ela escreveu, ele não desistiu, era tão tímida, aquele menino cresceu..." e você estava lá. Tantos lugares no mundo pra estar, mas você desejou estar lá.
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